sábado, 20 de fevereiro de 2016

Um Réquiem para as Boas Maneiras

Por Stephen Klugewicz, para The Imaginative Conservative
Tradução de Leonardo Faccioni

Aos 9 de abril de 1865, o general Robert E. Lee encontrou o general Ulysses S. Grant na Casa McLean, em Appomattox, Virgínia, com o propósito de entregar a rendição do Exército da Virgínia Setentrional. Lee pedira pelo encontro e preparou-se endossando seu melhor uniforme: uma nova, longa casaca de colarinho alto, abotoada até o topo; um par de botas de cano longo com esporas; ao flanco, uma espada cravejada. Grant compareceu com seu traje rotineiro, o uniforme simples de um soldado comum: casaco curto e liso, botas sem esporas, todo salpicado de lama.

O contraste ao vestir acompanhou o contraste entre os homens: Lee era alto, de porte ereto e igual maneira. Barba e cabelos de um branco prateado circundavam sua face e perfilavam o vulto digno de um rei. Grant era mais jovem e dez centímetros mais baixo, algo encurvado e dotado de uma rala barba castanha. Ele estava claramente pouco à vontade na presença de Lee e, nervoso, tentou estabelecer uma conversação corriqueira. Grant disse lembrar-se ainda muito bem de Lee desde um seu encontro durante a Guerra Mexicana, quase duas décadas antes. Lee confessou não recordar coisa alguma da ocasião. Ouvir a resposta de Lee deve ter sido um momento embaraçoso para Grant.

Essa cena culminante da Guerra Civil Americana foi com frequência citada como o emblema de um divisor de águas históricas: a rendição alegórica do Velho Mundo, com suas personalidades régias, vínculos cavalheirescos e riquezas hereditárias, a um Novo Mundo personificado por Grant, um homem de origens humildes que repetidamente fracassara nos negócios e fez-se, finalmente, ao lutar na guerra (se bem que com esmagadoras vantagens em homens e materiais ao seu lado). E de fato foi assim.

Mas também foi mais. Menos notado é o descuidado desrespeito de Grant por Lee ao deixar de vestir-se apropriadamente para sua reunião. Escusas foram levantadas sobre Grant ter acorrido ao encontro às pressas, pressionado por negócios urgentes; por ter estado, naquela manhã, sofrendo há dias de enxaqueca, e que, consequentemente, “trivialidades” tais como uma própria vestimenta eram as coisas mais distantes de sua mente. Os admiradores de Grant chegam a apontar suas vestes rudes como uma insígnia de honra: aí estava o soldado duro na queda, o americano da fronteira, o verdadeiro democrata, cujo valor se encontrava em sua disposição interior, em sua perseverança, e não na superficialidade de seus trajes, preocupação efeminada de uma era afetada e decadente.

Mas as aparências importam. Quando estudante, o jovem George Washington certa vez realizou um exercício de cópia intitulado “Regras de Civilidade e Bom Comportamento em Companhia e Conversação”, baseando-o em um texto jesuíta do século XVI. No topo da lista de suas cento e dez regras, uma guia-mestra: “Cada ação feita em Companhia há de ser desempenhada com algum sinal de Respeito por aqueles que se encontram Presentes”. Essa máxima presidiu a cultura ocidental desde a Idade Média, exemplificada pelos modos corteses das classes elevadas, onde e quando quer que se encontrassem: dos cavaleiros do reino franco aos nobres elisabetanos, chegando à classe aristocrática do sul americano, por Lee e Washington representada. Aonde as classes altas conduzissem, as demais as seguiam. As boas maneiras comunicavam-se, de forma que o trabalhador comum, na Londres do século XIX, ao usar seus trajes de domingo, tentava emular os hábitos de seus melhores. Cartola e colete podiam ser batidos e de qualidade inferior, mas ele os portava altaneiro, nada obstante.

Hoje, a noção de que o cultivo de boas maneiras deveria ser parte essencial da educação pessoal foi perdida quase por completo. Ela parece ter morrido junto a sua maior defensora contemporânea, Emily Post. “As maneiras são a personalidade”, escreveu Post, “a manifestação aparente do caráter inato e da atitude que alguém tem perante a vida”. Provas de seu falecimento estão por toda a parte ao nosso redor: o uso aberto de linguagem chula pelas ruas, não apenas da parte de uma juventude desleixada e mal-educada, mas por bem-vestidos empresários de meia idade; a estridência em nossos ouvidos de algo equivocadamente tratado como música por seus adeptos desde as janelas dos automóveis; as curvas e mudanças de faixa por motoristas pouco afeitos à cortesia de dar sinal; a violação rotineira de nosso espaço pessoal por transeuntes sem qualquer pedido de desculpas, e, mais óbvio e espantoso, o horrível declínio nos padrões de vestimenta. Com efeito, camisetas, jeans e tênis tornaram-se indumentária padrão para adultos nas “sextas-feiras casuais” do mundo dos negócios, e, ainda mais sofrível, também nas missas de domingo. As pessoas se aventuram de suas casas, saindo a público em pijamas para seus afazeres das manhãs de sábado. Hoje é a classe mais baixa da sociedade a determinar os padrões dos trajes para todos os demais. Jovens adotaram versões exageradas de uniformes presidiários como roupa quotidiana, mormente calças por demais folgadas, vezes tantas usadas tão baixas que suas roupas íntimas (e mesmo o derrière) ficam expostos para todos verem.

A sociedade de boas maneiras começou sua agonia na América durante os anos 1960. O primeiro golpe letal foi-lhe desferido pela Esquerda radical, política e cultural, que pregava serem os paletós, os modos polidos e o asseio pessoal símbolos da opressão das classes médias burguesas. Por sua vez, trajar camisetas tingidas, jeans rasgados, chinelos de dedo, barba desgrenhada e cabelos despenteados sobre a face e a cabeça, ensinava a Esquerda, era a via para produzir a revolução igualitária que corrigiria as injustiças sociais.

A obra iniciada cinco décadas atrás pela Esquerda do espectro político foi exacerbada pela Direita anos depois. Grandemente em resposta às gélidas formas do que ficou conhecido como “politicamente correto”, imposto pelos radicais nos campi universitários, direitistas libertários, a partir dos anos 1990, adotaram o mantra de que “ninguém tem direito a não ser ofendido”. Em uma transformação decisiva do antigo adágio libertário sobre o direito de alguém terminar no direito de outrem, esses novos libertários alegavam que sua liberdade de expressão era completamente independente das sensibilidades religiosas alheias ou do apropriado senso de decoro. Portanto, pornografia, sátiras ultrajantes das crenças religiosas e linguagem grosseira eram aceitáveis em praça pública. A quem se ofendesse por tais coisas, esses libertários pregavam ser problema do ofendido, não do ofensor. Com efeito, os libertários arguiam que seu direito de vomitar o que quisessem pela palavra escrita e falada não era limitado pelos olhos e ouvidos alheios. Diziam aos ofendidos: “—Você que se vire!”

Assim os inimigos das maneiras, tanto à Esquerda quanto à Direita, juntos constituíram os Jacobinos de nossos dias, determinados não apenas a derrubar um sistema injusto de governo, mas a obliterar o próprio tecido social, destruindo para tanto todos os padrões de decoro. Este paralelo com a Revolução Francesa aproxima-nos ao pensamento do grande estadista anglo-irlandês Edmund Burke, para quem os Jacobinos da França estavam, acima de tudo, lançando um assalto às “maneiras”. Por “maneiras”, aqui, Burke entendia algo mais amplo que aquilo hoje entendido. Algo próximo ao costume. Para Burke, os costumes eram quase sinônimos de civilização. “As maneiras são mais importantes que as leis”, escreveu ele. “Maneiras são o que nos atormenta ou apazigua, corrompe ou purifica, exalta ou rebaixa, barbariza ou refina, por uma constante, determinada, uniforme, imperceptível operação, como aquela do ar que respiramos”.

Maneiras – e a própria civilização , Burke sustentou, dependiam de duas coisas: a religião e o “espírito dos cavalheiros”. Robert E. Lee acreditava no mesmo. Como presidente do Washington College nos anos seguintes a Appomattox, ele reduziu as regras da escola a uma única frase: “Cada estudante deve ser um cavalheiro.” Para Lee e para Burke, um cavalheiro era aquele que demonstrasse virtude cristã, como a incorporada no código medieval de cavalaria, um elaborado sistema de comportamento adequado para com os outros – maneiras no sentido estrito do termo.

A qualidade da humildade cristã reside na raiz da cavalaria. Um cavaleiro cavalheiresco (a palavra “cavalheirismo” compartilhando com “cavaleiro” a mesma raiz, como no francês “chevalier”) humilha-se em sociedade perante todos os demais. Eis como estava vinculado por obrigações não apenas a seu senhor, seu superior, mas para com os mais fracos, especialmente as mulheres, cuja virtude inocente era sua missão proteger, e também para com os pobres, cuja frágil condição era obrigado a aliviar. Basta lembrar de São Martinho de Tours, que famosamente cortou metade de sua capa militar para dar de vestir a um homem que nada tinha. Adotar uma filosofia de individualismo, pela qual é rejeitado o zelo sobre os outros, teria sido inimaginável para o cavaleiro cristão.

É preciso ter em mente quão únicas foram a noção cristã de humildade e sua idéia correlata de cavalheirismo ao longo da história mundial. No antigo mundo pagão, por exemplo, a humildade era considerada um sinal de fraqueza. Igualmente, em muitas sociedades modernas não-cristãs, é esperado dos superiores que sejam rudes com seus subalternos, assim mantendo cada qual em seu devido lugar. Os poderosos, em muitos tempos e lugares, impuseram brutalmente seu jugo como forma de manter o status quo.

Mas o cavalheirismo cristão, Burke acreditava, “faz o poder gentil” e servia para “embelezar e amenizar a sociedade privada”. Ele harmonizava as relações humanas. Sem ele, a sociedade só poderia manter-se pela força bruta e pela racionalidade fria. Ido andaria o calor das corteses relações humanas, corrompida estaria a moral dos homens, e todos seriam reduzidos a escravos.

É claramente impossível delimitar o momento exato quando o declínio do cavalheirismo e das boas maneiras teve início no Ocidente. Burke por certo encontrou o processo bastante avançado na Europa aos tempos da Revolução. “A era do cavalheirismo é finda”, escreveu Burke nas suas Reflexões sobre a Revolução em França. “Aquela dos sofistas, economistas e calculistas há triunfado, e a glória da Europa foi extinta para sempre”. Talvez, na América, o brusco declínio das maneiras tenha começado mais tarde, em um humilde lar ao centro-sul da Virgínia, onde o último cavalheiro do Velho Mundo deitou sua espada em derrota, dando lugar à Nova Ordem Mundial de governo centralizado, capitalismo de compadres e de um narcisista Homem Novo, cuja preocupação principal viria a ser o lucro e a felicidade pessoal, não a piedade e a preocupação humilde pelos demais.      

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