segunda-feira, 8 de junho de 2015

A nobreza da Reação

Não tenho problema algum com o vocativo “reacionário”. Em verdade, nobre elogio! Reacionário é quem reage contra tudo o que não presta, dizia Nelson Rodrigues. Qualquer cadáver pode seguir a correnteza — somente quem vive almeja reagir contra ela (Chesterton). Conforme Gómez Dávila, “quem quer que tenha vida interior” é um “verdadeiro aristocrata”, de modo que sequer se impõe ao reacionário, que reage porque verdadeiramente vive, mínima restrição de classe.

Imaginemos que você fosse um pastor. De ovelhas, bem entendido. Ou um camponês entre seus campos de trigo. Isso lá pelos idos de um outro século. Estava tranquilo a ceifar os grãos da terra, ou a tocar as ovelhinhas de um pasto ao outro, esperando que bebericassem a água da fonte. Chegam os soldados do rei. Um rei injusto. Iníquo. Abusivo. Tomam-lhe tudo o que haveria de comer no inverno. Violentam sua esposa e suas filhas. Revogam as tradições de bom governo e os direitos assegurados por geração após geração, tudo num instante, e partem em busca da próxima vítima, há algumas léguas dali.

O rei é um usurpador. E você sabe que, em algum lugar, distante que seja, um rei bom existe, homem concreto e sólido, e se conduz segundo os mais altos princípios. Existem, portanto, meios eficazes de depor o tirano. É possível opor resistência justa e restaurar a boa ordem — ao menos, uma ordem melhor. Você reage ou não reage? Se reage, é reacionário. Que beleza, portanto: ingressa na narrativa dos mais épicos enredos do imaginário clássico. Uma narrativa que, não por acaso, os novos contos fazem o possível por perverter.

O direito a reagir contra quem degrada a ordem justa é o direito humano por excelência.
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Por falar em imaginário, educá-lo é fundamental. Platão já o alertava, ao ponderar sobre quão imperioso seria expor o sábio, desde tenra infância, aos arquétipos mais estelares da virtude, de maneira a apresentar-lhe, já então, a bondade como hipótese biográfica a buscar com afeição em todas as suas possibilidades de conduta. Superabundam nos espaços da mídia as más narrativas, e mesmo os contos de fada, em releituras contemporâneas, impregnaram-se de cinismo e ceticismo quanto ao bom e ao moral. Tomemos, pois, contramedidas — seguindo o conselho de Gómez Dávila, mais do que nunca, “hoje, o indivíduo tem de ir reconstruindo, dentro de si mesmo, o universo civilizado que vai desaparecendo ao seu redor”: Esopo, Andersen, Perrault, os irmãos Grimm, Tolkien, Homero, Shakespeare, Dante, Chesterton, Dickens, Dostoiévski, Huxley. Os doze passos indispensáveis para salvaguardar o imaginário contra o assédio do tonto pós-moderno que espreita em cada esquina. Ao ver um pós-moderno (sentenciaria J.P. Coutinho), fuja para a modernidade. Ou vá além. Tanto melhor. Busque o Graal da Verdade, arme-se com armadura cintilante e retorne a provar que a pena, apenas esta, é mais forte que a espada, que o canhão, que a bomba. Vive para sempre e não se deteriora. Basta que alguém a proclame com retidão e a defenda contra o agressor.

2 comentários:

Teresa Martins disse...

Tudo bem, Leonardo Faccioni. Mas se continuar escrevendo com esse espaçamento (8/11/2014 para 08/06/2015) daqui a pouco ninguém mais lê o seu blog. Voce tem muito a dizer. Continue dizendo!!!

Marat Silva disse...

Concordo com Teresa. Abraço!