sexta-feira, 21 de março de 2014

Notas a uma religião implícita

No século XIX, os Estados, dominados pela revolução, baniam ordens religiosas, expropriavam conventos, vetavam a missa e a procissão, quando não partiam à deportação e ao assassínio direto de católicos - tudo ao gosto de Nero. 

Na segunda metade do século XX, o clero, comandado desde Roma, mas há muito açulado e prontamente emulado nas Américas, infundiu-se de coragem e bradou, "Basta! A Igreja não mais será vítima mórbida das ideologias: há que ser protagonista!". E, desde então, a fim de se guardar contra a inimizade do Estado, a Igreja preventivamente bane, expropria e veta a si própria. 

A imprensa livre delira. Os chefes de Estado rejubilam. "Nunca convivemos tão bem!" Esmorece só o calendário, que remonta a dois milênios obscuros em um mundo ofuscado pelos anos 1960.

Os aforismos seguintes, de autoria do grande mestre colombiano Nicolás Gómez Dávila, escrutinam o Zeitgeist já não novo, conquanto animosamente renovado, que move a Igreja, a religião e a "espiritualidade" (o "Geist", ora pois, de nosso "Zeit") contemporâneas. Entre eles se vislumbra, outrossim, uma religião que já não há, de uma civilização que se foi, mas fora da qual não se logra em verdade viver.

"Mis convicciones son las mismas que las de la anciana que reza en el rincón de una iglesia." 

VENTOS DE MUDANÇA

«Antigamente, os tontos atacavam a Igreja; agora a reformam.»

«A crise atual do cristianismo não foi provocada pela ciência, ou pela história, mas pelos novos meios de comunicação. O progressismo religioso é o empenho de adaptar as doutrinas cristãs às opiniões patrocinadas pelas agências de notícias e pelos profissionais da publicidade.»

«Sobre o campanário da igreja moderna, o clero progressista, em vez de cruz, coloca um cata-vento.»

«Mais que um vento de traição, sobre o clero moderno sopra um furacão de estupidez.»

«A obediência do católico converteu-se em uma infinita docilidade para com todos os ventos do mundo.»

OS NOVOS MANDAMENTOS

«O clero moderno resolveu retificar a ordem dos mandamentos evangélicos. Assim, omitindo Deus, ordena amar ao próximo sobre todas as coisas.»

«Colocar o "próximo" no lugar de Deus havia sido o propósito do protestantismo liberal do século passado, e do progressismo católico pós-conciliar.»

«Ocupar-se intensamente da condição do próximo permite ao cristão dissimular suas dúvidas sobre a divindade de Cristo e a existência de Deus. A caridade pode ser a forma mais sutil da apostasia.» 

«A Igreja pós-conciliar pretende atrair o rebanho ao traduzir, para a linguagem insípida da diplomacia vaticana, os lugares-comuns do jornalismo contemporâneo.»

«A Igreja, ao abrir e escancarar suas portas, quis facilitar a entrada aos de fora, sem pensar que mais facilitava a saída aos de dentro.»

«O moderno trocou a Imitação de Cristo pela paródia de Deus.»

«A inépcia e a sandice do palavrório episcopal e pontifício nos turbariam, se nós, cristãos velhos, não houvéssemos aprendido, felizmente, desde pequenos, a dormir durante o sermão.» 

«Não conseguindo que os homens praticassem o que ela ensina, a Igreja atual resolveu ensinar o que eles praticam.» 

"HERI, HODIE, CRAS"

«A Igreja antiga pôde adaptar-se ao mundo helênico, porque a civilização antiga era de índole religiosa. No mundo atual, a Igreja se corrompe caso ceda.»

sábado, 1 de março de 2014

Contradictio

Por natureza, toda esquerda é libertária: adora libertar as balas dos tambores de seus revólveres. Que seus dissidentes insistam em cruzar a trajetória dos disparos é uma infeliz coincidência nada que macule os esforços da utopia.

Os regimes de esquerda instalam-se para abolir todas as prisões. Quem poderia resistir a tão nobre ideal, senão uma raça de víboras? Evidentemente, toda resistência à esquerda há que ser encarcerada.

Um governo de esquerda é necessário para que todos sejamos iguais. Nada mais justo que quem o torne efetivo venha elevado acima, mas muito acima dos demais. O governante de esquerda é ídolo, é soberano, é deus e quem não lo crê está morto. Ou estará, após julgamento sumário por tribunal popular de exceção, cujo costume fará regra.

A esquerda é um paradoxo para a doxa. É um fim em si mesma. É um moto contínuo em um poço sem fundo. É Cronos entre os gregos, a devorar os próprios filhos. É a grande aranha de Tolkien, cuja fome um mundo inteiro não poderia saciar. “Fuzilamos? Sim, fuzilamos e continuaremos fuzilando sempre que necessário. Nossa luta é dedicada à morte”, bradou um certo comandante argentino. “Caminante, no hay camino — se hace camino al andar”. E ai daquele que pensar em desviar do abismo logo adiante bala na nuca, conta à viúva. A esquerda é um morrer constante. O cristão, pelo martírio, alcança a Vida Eterna. O militante tombado assegura, ao revés, que a destruição não tenha fim.

Stálin ordenava sacar das fotos de glórias passadas os traidores de sua revolução. “Voltar atrás? Nem para pegar impulso!”, é hoje ainda lema da ilha dos irmãos Castro. Um conservador, diria G.K. Chesterton, consulta sempre a democracia dos mortos, recusando-se a seguir cegamente a arbitrária aristocracia dos que, neste instante, encontram-se vivos. Reconhece no tempo um baú de tesouro inestimável: a sabedoria confiada pelos avós de nossos avós, a ser legada aos netos dos netos. O esquerdista é de outra cepa: dedica-se continuamente a jogar ao mar novos cadáveres e os repescar do oceano, pelo macabro prazer de arremessá-los novamente.

O pior crime em uma organização de esquerda, aquém tão-somente do amor ao próximo acima das abstrações não definidas, é parar. Sim, parar pura e simplesmente. Deixar de pisotear, feito Átila, a grama sob seus pés, para enfim ouvir o silêncio. A harmonia da noite em uma praia deserta, indiferente ao pensamento. Sem uma turba a repetir os jargões de sua garganta, o esquerdista é um nada. Para o conservador, o silêncio é tudo: por ele escuta as regras impressas na natureza das coisas, que serenas se revelam apenas a quem as respeita tais como foram criadas. Não é um fatalista, aprende sim a cultivá-las conforme suas aptidões. Descobre segredos inóspitos na grande aventura do real.

Um deles: não baleá-las, se as quer vivas. Elementar? Nem tanto. Desde 1789*, ao menos, e hoje ainda, a esquerda política, cultural, universal — turbilhão puro, eco de si mesma em constante reinvenção da roda — matou, mata, promete matar, seguirá matando para que tudo possa, garante ela, viver um dia.

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*Datar o sanguinário modus operandi da política sinistra a partir da revolução francesa, seja dito, é generosa concessão. Particularmente, vislumbro suas raízes entre um punhado de heresias tardomedievais e os postulados maquiavélicos (Niccolò Machiavelli, recordemos, viveu de 1469 a 1527) que, esvaziando a Cristandade, convenceriam detentores e persecutores do poder de que a “luta” dispensava os princípios da ética comum, ou que a moral — ah, a moral! — aplicável aos simples, aquela mesma moral não se lhes aplicaria. Uma linhagem que haveríamos de perquirir seguramente até o super-homem niilista. Posturas intelectuais que forjam caracteres patológicos, assinalaria Dostoiévski; indivíduos cuja loucura fundaria civilizações inteiramente calcadas na histeria, arremata Dr. Andrew Lobaczewsk.

Entrementes, não nos pautemos por minha opinião. Deixemos falar ele, o revolucionário, na pessoa do epocal Saul Alinsky. Assim começa seu livro mais notável, fundamental à nova esquerda americana e global: com uma dedicatória “ao primeiro radical...que rebelou-se contra a ordem estabelecida, e o fez tão eficazmente que, ao menos, conquistou seu próprio reino: Lúcifer” ("Rules for Radicals"). Como se vê, 1789 foi singelo novo ato a um terror que precede o homem. Terror tão ancestral quanto a noite, e como a noite a ser vencido pelo dia... Noites e dias; revolução e contrarrevolução.