sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Boas festas, cara-pálida!


“Encontramo-nos na iminência de uma Nova Era”. Não por determinismo dos astros, tampouco por mutações anômalas de um certo inconsciente coletivo. O slogan, que se repete ao menos desde 1968, tão carregado de boas vibrações, talvez convirja para algo mais que “wishful thinking”. Talvez seja propaganda.

Tudo o que é novo vende, e vende bem. A vida à moda antiga – “the old fashion way” – tem sua oferta cada vez mais marginalizada. Ocorre que o novo, apenas porque novo, não necessariamente é melhor ou superior. É plenamente possível que, na transição entre uma era e outra, entre o furor do fluxo informático, experiências valiosas percam-se para sempre. Quanto maior a ruptura entre as gerações e menor o contato de uma para com a outra – quanto mais edipiana a passagem – maiores as chances de que os filhos sejam, pura e simplesmente, mais estúpidos que seus pais.

A Grécia antiga conheceu três gerações de filósofos que, por si, foram suficientes a lançar as bases de inteiras civilizações: Sócrates instruiu Platão, que lecionou a Aristóteles. Aristóteles foi professor de Alexandre, dito o Grande. Mas à geração alexandrina interessava menos a contemplação de seus mestres, que a ação em si mesma. “Impérios são cemitérios de civilizações”: a filosofia grega nunca viria a produzir nada comparável ao trio ancestral de notáveis. O velho ciclo sequer era compreensível a seus sucessores.

Vivemos ruptura análoga. Nossa sociedade prefere a novidade em todas as searas. Mas planta nova tem raízes menos fundas; é abatida com facilidade. Na política, como na cultura, a aparente exclusividade do novo pode implicar maiores possibilidades de manipulação por gerontocratas matreiros nos bastidores. Busca-se o novo para ressuscitar velhos erros, olvidando-se as lições da sabedoria.

Sabe-se hoje, por exemplo, que a disseminação dos movimentos de contracultura no Ocidente não foi uma rebelião espontânea. Uma aliança entre políticos e teóricos, emergente sobretudo após a segunda guerra mundial, arquitetou uma nova escala de valores a ser imposta ao proletariado universal. Floresciam a chamada “Escola de Frankfurt”, o gramscismo, a infiltração denunciada por Yuri Bezmenov (v. “New lies for old”), atualmente hegemônica na educação estatal e nos meios de comunicação (v. BERNARDIN, Pascal, “Machiavel pédagogue ou Le Ministère de la réforme psychologique”).

O desprezo ativo pela sabedoria do tempo pregresso, a arrogância dos neotolerantes ao, de seus pedestais impúberes, julgarem completos idiotas seus pais e avós, a pregação para “não confiar em quem tenha mais de trinta anos”: tudo se coaduna para romper os laços com os valores perenes (a família, a religião, a filosofia, as associações livres) e, atomizando o indivíduo, sujeitá-lo ao poder ilimitado do Estado.

Nesta época de fim de ano, atentemos a uma manifestação daquele mesmo ímpeto: empresas tidas como inovadoras e multiculturais, cujas páginas na rede mundial celebram solstícios, equinócios, festas cívicas e religiosas mesmo das terras mais longínquas e isoladas, recusam-se terminantemente a desejar a seus clientes um mero "Merry Christmas", “Feliz Natal”. A expressão vem substituída por “Happy Holidays”, boas festas. Inocentemente, somos tentados a imitá-las por economia de palavras. Não nos demos ao luxo da inocência: eles são astutos.

Muitos governos na América do Norte e Europa admitem-no expressamente: desejam banir o Natal de seus calendários. A festa é cristã ("Christmas begins with Christ"), e pode-se tolerar tudo – menos o cristianismo de nossos avós. Esse, não. Esse é odioso. A filosofia cristã, com seus Agostinhos, Aquinos, Pascais e Leibniz, prega a existência de verdades absolutas, eternas e universais. Afirma que há o certo e o errado, o bom, o mau e o Mal. Se tais noções forem corretas, o poder do Estado não pode ser ilimitado: a moral o confinaria. Para a Nova Era que se anuncia, tal noção é inaceitável.

Suma incoerência: com o fim do cristianismo, caridade e tolerância – virtudes cristãs – tornam-se ininteligíveis. Não há fraternidade sem paternidade. Sem a noção de uma verdade absoluta e eterna, César e Leviatã tornam-se deuses outra vez. O absoluto imanentiza-se, para que o homem escravize o homem.

Assim, basta um pequeno gesto a sabotar o esquecimento das eras postas; uma disposição de desobediência cívica contra os potentados da Nova Era, mas obediente às Leis Eternas, para mostrarmos que o esquecimento do passado não é um fado inevitável: desejemos uns aos outros, com todas as letras, um feliz e santo Natal. E um ano novo no qual não se percam as lições de dois milênios e meio da sabedoria transmitida gratuitamente. Uma vez perdida, apenas novos séculos de esforço homérico a restaurariam.  

Dizia Gómez Dávila que “civilização é o que logram salvar os velhos da investida dos idealistas jovens”. Para nosso infortúnio, os velhos de hoje são ainda os tolos de 1968. Nada esqueceram; nada aprenderam. Toca-nos ir além, em busca do tempo perdido. A começar pela linguagem: salvem o Natal! Não nos deixemos barbarizar. Não somos pré-colombianos, não praticamos o sacrifício humano e a gladiatura. Festas, também aqueles as tinham. O Natal é coisa nossa, nosso Princípio. Ouçamos o alerta dos velhos, de Mario Ferreira dos Santos, de José Ortega y Gasset. "Boas festas, cara-pálida"? Tomam-nos por selvagens? Obrigado, mas não. Feliz Natal!

______________________________
Leitura relacionada: "Por que celebrar o Natal?", por Olavo de Carvalho. 

Um comentário:

maia95 disse...

Boa tarde! Esse post é de lavar a alma.
Veja a selvageria acontecendo nos EUA:

Outrage as Army bans word ‘Christmas’: ‘Treats pornography better than it does Christmas’

http://www.bizpacreview.com/2013/12/24/outrage-as-army-bans-word-christmas-treats-pornography-better-than-it-does-christmas-90241

Tenha um Feliz Natal!