terça-feira, 26 de novembro de 2013

A Cidade do Homem: Doutrina Católica e contingência social

I) A VERDADE QUE PERDURA

A Igreja tem causa no Absoluto. O Absoluto é a Verdade primeira e última, razão e fim do homem e de tudo o que há sob os céus. Mas a atividade humana no mundo expressa-se sob formas as mais diversas e, se é certo que, visando cada qual ao Bem, comunicam-se com a Verdade e a Ela conduzem, essas facetas não se confundem com o Bem ele mesmo. Deus quis que as coisas do mundo existissem. Elas existem porque Ele as sustenta, mas elas não são Ele. O catolicismo não é panteísta.

Nem cesaropapista. A distinção entre o poder destinado às coisas do mundo – os bens contingentes – e às coisas de Deus – a Verdade universal – acompanha o pensamento católico, conforme proclamou o Verbo Encarnado. Uma diferença tremenda, pois Nosso Senhor manifestou-se em um tempo no qual autoridades temporal e religiosa [con]fundiam-se ao ponto da literal divinização dos governantes, césares e faraós.
  
Mas Cristo refutou a idolatria. Não separou moral e vida pública – isso não quis Cristo, mas Maquiavel: um homem bicéfalo – porém não legislou códigos civis, como faria o Profeta islâmico. Ocorre que a Igreja por Ele deixada convive com o mundo, e é parte de sua missão exortá-lo a conformar-se ao Reino celeste, para a salvação das almas. Exortá-lo, não mutilá-lo, como Procusto fazia aos viajantes que acolhia.  

Em verdade, este mundo não se salva. Salvam-se os homens que o compõem com o coração voltado às coisas do Reino, Mundo Novo, Nova Jerusalém. Enquanto houver mundo, o mundo será mundo, não Céu. Cada católico e a Igreja são céu que vive em Terra; porém a Terra não se converte em Céu com a vontade humana.

A vontade humana. Tolkien deliciava-se ao falar do homem como co-criador, aquele que cria porque, imagem e semelhança de Deus, anseia imitar o ato criativo mais sublime. De fato, a criatividade humana só é limitada pela potestade divina, resultando disso os mais incríveis, fascinantes e peculiares arranjos sociais.

Seria impossível a um só homem prever todas as verdades particulares hoje em ato sobre a Terra: apenas a mente divina pode abarcá-las. A quantidade de informação que geram ultrapassa o raciocínio individual. Pela mesma razão, as múltiplas facetas da existência humana no mundo são irredutíveis a uma ciência una – a ciência definitiva, sonhada pelo positivismo e pelo marxismo. O co-criador, bebendo sempre da fonte inesgotável da mente divina, não cansa de surpreender. A cada dia se entoam cânticos novos, ao deleite do Senhor.

Se não há teoria capaz de reduzir todas as verdades particulares à Verdade Universal, é preciso reconciliá-las uma a uma. Cada arte possui sua função. Idealizar inteiros sistemas virtuosos em si mesmos é ignorar que o espaço de harmonização entre uma arte e outra – o espaço onde a virtude se manifesta – não é o objeto, o modelo, o organograma, mas o homem enquanto tal, em sua realidade inquebrantável de pessoa a refletir a imagem divina.

II) VERDADES COMUNICADAS

Isto posto, sabendo que eventualmente contrariarei nisto muitos amigos que se vêm manifestando em apoio aos meus comentários mais recentes noutros sentidos, peço vênia para apontar dois erros sistemáticos que entendo haver em certo modo de defender a Doutrina Social da Igreja:

a) Quando a DSI veio proposta em sua forma atual, em fins de século XIX, seus teóricos nutriam a expectativa de uma sociedade ou imbuída de valores cristãos, ou apta a vê-los restaurados como pensamento reinante. É dizer, para o sucesso da DSI, é pressuposto que o povo por ela envolto seja um povo catequizado, verdadeiramente católico.

A DSI é pensada a fim de promover uma sociedade orgânica/organizada/dotada de organismos impregnados de missionarismo cristão – sociedade natural ordenada ao sobrenatural. E isso é belíssimo. Quando essa sociedade conta com indivíduos aptos a ocupar e coordenar tais espaços para os fins católicos pelos quais foram propostos. Nós acaso os possuímos? Se a resposta é negativa, uma organização social baseada na DSI cria puros e simples vazios de poder a serem preenchidos por quem estiver disponível. E a mão de obra disponível é maciçamente anticristã.

Ponderava Russell Kirk: para haver ordem na sociedade, é preciso, primeiro, que haja ordem em cada alma.

Não adianta promover o associativismo onde não há com quem se associar. É inútil propagar a distribuição quando os beneficiários foram educados a serem eles próprios, a seu modo, concentradores de benesses. De nada vale criar sindicatos a pensar nas gloriosas corporações de ofício medievais, quando a cultura do sindicalismo contemporâneo resume-se não à excelência e dignidade daqueles tempos, mas à mediocridade compulsória e à locupletação individual.

Assim que, antes de catequizarmos instituições, é necessário formar os homens que as irão compor. E isso não será concluído em nosso tempo de vida. As instituições serão conseqüência, por exclusiva graça divina e mérito das obras de muitas formiguinhas na fé.

b) Percebo certo fetichismo em atribuir virtudes a conceitos abstratos como "a economia justa" e, em sentido oposto, vícios - como o "capitalismo ganancioso". Primeiro, porque economias não são justas, nem injustas. Uma inteira economia é uma teia de relações tão brutalmente emaranhadas que a mente humana sequer poderia sonhar julgá-las como um todo sólido. A justiça de tais relações deve ser verificada caso a caso, em consideração aos sujeitos concretos nelas envolvidos.

Já "O Capitalismo" é conceito por demais aberto, por demais vazio. Melhor seria falar em livre disposição do trabalho e de seu fruto. Em uma sociedade de confiança (cfe. Alain Peyrefitte), contraposta a uma sociedade do medo. E qual seria a alternativa? Impormos a todos, mediante sanção, que dispusessem de seus corpos e bens em conformidade para com o Magistério da Igreja acerca de cada mínimo aspecto da vida? Se assim fizéssemos, que mérito restaria aos homens ao serem virtuosos? Pode a verdadeira virtude ser uma linha de ação compulsória? Alguém pode ser obrigado por outro homem a ser integralmente virtuoso? Se pode, por que Deus não nos compeliu Ele próprio, desde Sua onipotência, a assim agir? Por que permitiu até aos anjos que escolhessem entre o Absoluto e o contingente?

Não é essa a doutrina católica. A escolástica estipulou, como limite ao poder temporal coercitivo, que este dispusesse apenas acerca do “mínimo dos mínimos éticos”. A ética integral exerce-se em liberdade.

Não há sistemas econômicos justos ou injustos. Sistemas econômicos são sistemas econômicos, não teorias gerais da Justiça. Há modelos que favorecem a comunicação de virtudes humanas, e modelos que a obstam em maior grau, sem dúvida. Mas não produzem - nem anulam - a virtude por si próprios.

A meu ver, o aspecto que mais urge defender na DSI, no presente momento, é a subsidiariedade no exercício de toda forma de poder. E, quando se consideram a economia e a política, é inegável que a situação atual ostenta impensável concentração de meios em um Estado mastodôntico, idólatra inclusive, e que isso, por si, é uma afronta insuportável à doutrina da subsidiariedade.

Acontece que qualquer reforma neste aspecto vem atacada pelo establishment, o grupamento cultural hegemônico, como se constituísse ação "neoliberal" e "capitalista". Quando todos nós sabemos que, devidamente mensurada, tal reforma é fundamentalmente cristã, não materialista; libertadora, não "liberal". E, enquanto alguns se prestam a uma guerra de palavras contra aliados naturais, dos quais tanto necessitamos para o esforço político que precisaríamos empreender a fim de levar adiante a restauração da ordem social cristã, seguem garantidos os espaços de poder de nossos inimigos na esfera pública – os herdeiros do maquiavelismo.

Sob o apelido de "capitalismo" aglomeram-se facetas indissociáveis da condição humana como ser social ou político, juntamente a vícios realmente odiosos, mas contingentes, típicos de certos arranjos sociais que, a bem dizer, são posteriores ao período geralmente apelidado "capitalista" ou "[neo]liberal". Não é de se espantar, pois, que a multiforme "ideologia anticapitalista" seja o ponto fulcral da pregação de boa parte dos grupos que, com menor ou maior intensidade, anseiam remodelar integralmente não os arranjos sociais, mas a própria natureza humana, para que deixe de co-criar com Deus.

Combater "O Capitalismo" é combater uma miragem. "O Capitalismo" pode significar qualquer coisa - por conseguinte, significa nada. Militar contra "O Capitalismo", sobretudo no presente momento, é assinar um cheque em branco a toda a sorte de lunático, que encara dita retórica como o tubarão ao sangue n'água.

O que se quer combater não é "O Capitalismo", termo hoje correspondente a um mote propagandístico forjado pelo marxismo, mas sim uma forma mentis imanentista e imediatista; não a liberdade de dispor do fruto de seu trabalho ou de cooperar com terceiros ao dividi-lo em arranjos espontâneos, perfeitamente conformes ao princípio de subsidiariedade tão caro à DSI, mas sim uma cultura de indivíduos atomizados e apartados de qualquer preocupação superior ao "pão que comeremos amanhã".

Essa imprecisão conceitual, desencadeada pelas primeiras incursões política do Sumo Pontífice Francisco, custa caro à Igreja - em almas que perdem a trilha em meio à confusão, em agentes abatidos no campo inimigo por fogo amigo injustificável, em desarticulação de alianças naturais no momento exato em que tudo já parecia perdido, sob critérios estritamente mundanos. Por nossa fortuna, não ignoramos a regência sobrenatural do Corpo Místico de Nosso Senhor.

Nenhum comentário: