quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sub umbra alarum Tuarum: os “medievais” e as verdades perenes

“O ideal cristão não foi testado e reprovado. Ele foi considerado difícil e deixou de ser experimentado.”  G.K. Chesterton

As pessoas vivem a repetir bobagens monumentais acerca da “Idade Média”, assimilando versões hollywoodianas sobre seus “mil anos de trevas”. Mas a verdade é que todos pagam fortunas para ir à Europa e visitar os resquícios graciosíssimos daquele mesmíssimo período, contam os contos de encanto inspirados na sociedade feudal, donzelas sonham encontrar seus príncipes e rapazes adorariam galopar sob o ideal da cavalaria. Aliás, este não é privilégio infantil, pois a adesão a ordens maçônicas nas altas esferas da sociedade preenche, justamente, o vazio de sentido transcendente deixado pela retração dos corpos sociais medievais.
Enquanto a Idade Média, mesmo tão vitimada pela propaganda (sua própria designação a posteriori é pejorativa), ainda hoje alimenta uma indústria internacional riquíssima e povoa o imaginário ocidental com arquétipos de virtude, a Igreja Católica, mãe daquela época, deixa-se assustar por bichos-papões e insiste em renegar sua filha para adotar a modernidade. Vejam, por exemplo, a arquitetura dos templos católicos — para ficarmos em um campo imediatamente acessível aos sentidos. A cidadezinha de Canela, no sul do Brasil, não viveu a Idade Média, mas seus colonizadores europeus construíram-lhe uma belíssima catedral em estilo gótico, tal como se fazia. Turistas de todo o país acorrem às suas praças para deleitar-se com a visão.

A mundialmente famosa cidade do Rio de Janeiro, entretanto, tem por catedral um imenso balde emborcado. Jamais vi quem dissesse querer tantíssimo viajar ao Rio para conhecer seu templo capital, e vocês?

Um dos edifícios valoriza conceitos apreendidos pela contínua elucubração das artes: seu mero vislumbre comunica a inspiração celeste, conduz gentilmente o olhar para o alto, ultrapassa horizontes de consciência; no outro, pretendeu-se revolucionar. A tradição e a dignidade que lhe seriam propícias foram desprezadas, e tudo foi reduzido ao princípio mais rudimentar da engenharia: uma base volumosa a sustentar uma cobertura exígua. Ponto. Que se experimentasse juntar com a mão um punhado de areia e, em seguida, despejá-lo sobre a terra: ter-se-ia projeto bastante semelhante. Formigas poderiam construí-lo. Por resultado, o exterior do prédio é uma incógnita — não transmite, per se, valor algum. Quando se ingressa no ambiente, em lugar daquela impressão de gentil elevação da alma a Deus, o visitante sente-se esmagado pela magnitude do nada. O espaço aberto é tão nulo em significado que bem poderia ser um ginásio de esportes. Não faria diferença.

Onde ficou a mensagem?

A inspiração medieval mais ou menos fidedigna nunca cessou de povoar a literatura europeia. De Cervantes a Tolkien, passando por Sir Walter Scott, Andersen, irmãos Grimm e C.S. Lewis; desde o gênio shakespeariano, atingindo as deturpações eruditas de Umberto Eco ou o proveito popular de George R. R. Martin, o período guarda um encanto intrínseco bastante notório, pois foi a síntese material e a fonte mitopoética de quase todo o arranjo humano subsequente.

Enquanto alguns indivíduos brilhantes encontram no legado medieval um nicho de mercado tão vasto quanto a cristandade de outrora, aquela entidade que bem se poderia dizer a mentora (ou inventora?) do período faz todo o possível para escondê-lo sob o tapete. Com relação ao legado medieval, setores da Igreja comportam-se como aquela senhora de idade que, ocultando em seu porão relíquias inigualáveis, capazes de maravilhar a qualquer um, prefere redecorar a casa ao gosto do vizinho rico, excêntrico e de poucos amigos, esperando que este a freqüente com mais constância ou, quando muito, deixe de pisar-lhe as flores do jardim.

Ninguém está a advogar que a Igreja se engesse em um determinado tempo, tornando-se uma espécie de parque temático. Não! Trata-se do exato oposto. Não queremos uma Igreja artificialmente estagnada no medievo, no renascentista ou no barroco, tanto quanto não a queremos sitiada pelas viseiras estreitas da pós-modernidade. Galgamos, um dia, estar “sobre os ombros de gigantes”. Teremos descido e esquecido o que aprendemos?

A Igreja Católica, por ser universal, é a presença, no tempo, da totalidade dos tempos. Nossa humilde ambição é não deixá-la o olvidar, face ao constante assédio do presente sobre o patrimônio do eterno. A contemporaneidade produz tamanho ruído! Há que prestar atenção para escutar, lá ao longe, o badalar do sino da manhã.

Certos patamares de perfeição foram atingidos ao longo da história humana. São vias de acesso ao sublime, de caráter atemporal, como supratemporal é, em si mesma, a natureza divina. Quando a Igreja recebeu, de Cristo-Deus Encarnado, a missão de guardar as chaves para o Reino dos Céus, estava expresso que o Corpo Místico de Cristo seria, no mundo das formas transitórias, uma âncora para o terreno das verdades imutáveis, e que deveria sempre realizar ao reino de cá a possibilidade de acesso ao de lá: ser imagem e semelhança da completude e da estabilidade divinas, um faro da luz primordial em um mundo incerto e tempestuoso.

Renunciar às conquistas da civilização católica apenas porque certas verdades tornaram-se velhas e inconvenientes — como velho é o fato de que dois e dois são quatro — é demonstrar que se perdeu a compreensão da missão eclesiológica adquirida no momento fundacional. É esquecer que o mundo foi e será sempre hostil ao que o ultrapassa, mas que a Igreja nasce com o fim precípuo de ir além das contingências de sua época e lugar.

Assim, se identificamos certas realidades humanas para com uma dada antiguidade histórica, tanto melhor que a recuperemos! É sinal de que estiveram bem representadas na memória do homem. Sinal, sobretudo, de que já nos foram auferíveis. Se o foram um dia, é possível que o sejam sempre. Resta considerar se — e por quê — não mais no-lo são agora. Terão os símbolos da ordem cristã realmente perdido sua significância, de tal modo que devamos buscar novas formas, abandonar nossos traços distintivos em favor de métodos que nos são estranhos, vindos de nossos irmãos mais novos? Ou fomos nós, os católicos, quem voluntariamente abrimos mão de nossa identidade para não ferir uma sensibilidade moderna não mais que imaginária – a mesma sensibilidade que forjou o mito tão contraditório da “Idade das Trevas”, enquanto inventava sozinha a ideologia, o genocídio, a bomba?

Parece-me que o mundo contemporâneo está sedento pelo sublime, no exato modelo em que a Igreja lho ofertava outrora, e que apenas ela, a Igreja, tem a oportunidade e o dever de apresentar ainda agora. Mas alguns, mesmo habitando à sombra benfazeja da Cidadela do Eterno, negam-se a oferecer o que dela se espera. Ao contrário, pretendem que ela se insira no “mercado das ideias” com as mesmas práticas e propostas que se encontram em qualquer bar de esquina, entre mil e um concorrentes. Não, não e não! A humanidade precisa da Igreja Católica, eis que o homem precisa de Deus, e Deus é o sumo bem, e o sumo bem é universal e absoluto. Como nos dizia a presença da Igreja de sempre. A Igreja do eterno que se desvelou no contingente. A Igreja nascida para refletir, neste mundo, o outro; não uma Igreja que exacerbe as modas e os usos que a sociedade encontra fartos por si mesma.

Comover-se pelo vigor perpétuo do bom, do belo e do justo, uma vez encontrados — isto é ser medieval? Que sejamos medievais. Talvez a pejorativa “idade do meio” — “idade da luz”, no dizer de Régine Pernoud — tenha sido, entre as eras, a mais próxima possível do perene. Um reflexo imperfeito da hierarquia celeste. Uma sombra deixada pelas asas dos anjos, quando o homem comum os tinha certos como a sucessão dos dias. 

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*“Custodi me ut pupillam oculi, sub umbra alarum Tuarum protege me”: no dizer do salmista (Vulg., Sal., 17:8), “Guarda-me como a pupila dos olhos, esconde-me à sombra de Tuas asas.” Agora e sempre, assim na Terra, como no Céu.

Um comentário:

Dom Antonio Carlos Rossi Keller disse...

Parabéns, meu amigo Leonardo. Analise objetiva e completa da realidade de uma Igreja, chamada a ser Lumen Gentium, e que infelizmente, pela mediocridade de alguns, mal consegue ser um fraco lume... Teu artigo serve de reflexão e fundamentação para uma nova postura, no sentido de não envergonhar-se dos valores cristãos que impregnaram a cultura, a arquitetura etc. do Ocidente. Está destinada a desaparecer a cultura que renega suas raízes. Forte abraço.