domingo, 23 de junho de 2013

De boas intenções...

"Os participantes de um movimento político normalmente ignoram seu fim, seu motivo e sua origem." – Nicolás Gómez Dávila

Ao passar os olhos sobre as redes sociais, tidas como origem de toda a agitação popular, percebo duas tendências exegéticas bastante claras frente aos últimos acontecimentos¹: estudiosos que concebem a política a longo prazo, em função de um bem comum objetivo e transcendente, encontram-se cautelosos e preocupados; valentes de bom coração, trôpegos curiosos e militantes que planejam para a próxima eleição estão eufóricos com tanto movimento, inédito à maioria.

Como apaixonado pelos clássicos, embora adorasse acompanhar o entusiasmo dos segundos, não me é dado segui-los. A bibliografia que tenho reunido ao longo de já longos e árduos anos não mo permite. Minha constituição intelectual, mesmo que não valha gran cousa, não mo permite. Eu não posso aceitar ser guiado como manada do nada ao lugar nenhum. Se a natureza não aceita o vazio, serei eu a proclamá-lo boa meta para a civilização?

Parafraseando Chesterton (mencionei a passagem lá pelos idos do Conclave, também, quando a tropa comemorava o "iminente fim da Igreja Católica" – a propósito, teria sido postergado?), a sabedoria da continuada investigação sobre a verdade, empreendida pelo homem em um contínuo de lá se vão quase três mil anos, permite-nos avaliar as coisas do modo com que comovem a humanidade, e não apenas pelas últimas notícias dos diários. E o que estou a ver – sinto muito, gostaria de poder ignorá-lo! – difere de todos os momentos que tenham, em qualquer contexto histórico, levado às grandes realizações do espírito. Nenhum deles deu-se assim. Ao contrário, essa que está aí foi a configuração perfeita para fortes reveses civilizacionais. Entre eles contam-se seus precedentes. E eu não posso me permitir calar ao ver filme repetido. Serei chato. Anunciarei o spoiler, sim. Porque a miséria e as balas, aqui, não são cenografia e festim.

Quando toda a agitação atingir sua encruzilhada, entre três vias apenas haverá por decidir: a do fogo de palha, que logo se consome e deixa pouco mais do que cinza e poeira; a de um crescendo autoritário, em que a mobilização de massa efetive-se como condição de possibilidade para a desinstitucionalização. A última, menos provável de todas, única capaz de deixar ao país um legado positivo, é o despontar de uma liderança iluminada. O diabo – com o perdão da palavra – é que, entre nós, esse vocábulo ("iluminada") reveste-se mesmo de conotações sobrenaturais, pois tal liderança ora não existe, e seu surgimento demandaria uma intervenção direta do Criador na História. É a esperança de um milagre.

Entrementes, vejamos as grandes manifestações cívicas, as verdadeiramente positivas. Estas são destinadas não a romper, mas a restaurar a ordem mais perfeita a uma dada politeia. Neste exato momento as encontramos quer na Europa, quer nos Estados Unidos, e diferem das nossas em forma e em substância, a um ponto tal que se faz visível: basta um bater de vistas. Dias atrás, eram quantos milhares, em Paris e por toda a França, contra a agenda do governo deles (idêntica à do nosso, apontemos, porque sacramentada desde as agências da ONU e coordenada pelas mesmas fundações transnacionais²)? E nos Estados Unidos? E qual o saldo? Efetivamente, os governantes de lá aquartelaram-se, temerosos. Hussein Obama, o Grande Irmão infanticida, está às turras pela descoberta de uma pequena parte da teia que teve de armar para proteger seus programas apátridas contra a ação cidadã. É que esses movimentos, lá, efetivamente são um empecilho aos projetos de poder dos governantes, porque trazem pautas e projetos completamente alheios à vontade dos últimos. São uma alternativa real.

Já o modelo de protesto que se trouxe para cá não foi o do civismo restaurador. Foi, em parte, o surgido nas periferias das capitais europeias, com a segunda geração de imigrantes de países muçulmanos, que, à diferença de seus pais – eternamente gratos pela acolhida redentora –, eis que sem conhecer os comos e porquês de onde se encontram, têm absolutamente toda a sua existência custeada pelos Estados, mas, ainda assim (porque assim!), guardam em seu âmago uma frustração voraz. Demandam do Estado, a qualquer custo, que obtenha mais meios de ação para desviar às suas vontades. Querem ser servidos com mais, e muito mais, como o monstro sem fundo da noite escura, cuja fome, se pudesse, devoraria o mundo inteiro sem quedar saciada. Fazendo-o, imaginam-se grandes rebeldes e matutos contestadores da ordem estabelecida.

É também o modelo dos ativistas de 1968, que, conforme já apontamos em comentário anterior, agindo exatamente assim, foram os responsáveis diretos pelo estado atual das coisas no ocidente. Pior: mesmo a pauta destes era infinitamente mais precisa, tanto em meios, quanto em fins, do que a que se está afirmando no momento presente.

Pior de tudo, traz os mesmos signos e agentes inconfundíveis de um terceiro elemento, surgido na esteira da experiência islamista europeia e levantina, mas aperfeiçoado para universalizar-se: os movimentos anárquicos e predatórios dos Occupies americanos, que incorporam a pura fúria disruptiva dos fanáticos de um lado, e a agenda de reengenharia comportamental muito cara aos pedagogos da academia, de outro, atualizando o discurso neomarxista para a era das redes. Lá, como cá, pautas, condutas, vocabulários de extrema-esquerda forçam sua dialética sobre governos em si mesmos esquerdistas. No mais das vezes, a juventude que deseja integrar a vanguarda dessas causas, de conteúdo necessariamente indefinido, sequer se dá conta de suas implicações. Não é preciso que se dê. Basta que a leve adiante. “O importante é caminhar...”, convence-os a elite de ideólogos que vê de sobre as brumas, do ponto supremo da nau.

As manifestações cívicas buscam a luz, e iluminam a constituição verdadeira dos povos. As  manifestações das hordas são noturnas em suas práticas, como em suas finalidades. As suas chamas projetam grandes sombras, e são as sombras que se espalham sobre o mundo.

Prudência - a rainha das virtudes cardeais.
Impactos políticos mediatos e imediatos
É óbvio que a persona de Dilma, ou as dos governadores pegos pelo furacão, foram fortemente comprometidas. Embora todos eles sigam dispondo de pleno tempo hábil a fazer limonada dos limões. Para o prefeito paulistano e socialista fabiano Fernando Haddad, por exemplo, não é qualquer sacrifício implodir o preço repassado aos usuários pelas passagens de ônibus e sair-se por reformador e herói, obliterando qualquer outra causa com o impacto de sua medida. Não é do seu bolso pessoal que sairão eventuais repasses às empresas do cartel. Mas nada do que se está esboçando exigir nas ruas – se é que há realmente alguma coesão para quando essas abstrações que se proferem tiverem de ser subsumidas ao reino dos fatos – implica qualquer dificuldade seja aos grupos, seja aos projetos de poder em curso no Brasil. Na verdade, acelera-os ambos em suas trajetórias.

Reduzamos nossa escala histórica. Vamos recobrar os dois movimentos de massa compositores do mito fundacional da Nova República: as Diretas Já e o impeachment de Collor de Mello. Seremos tolos ao ponto de querê-los espontâneos?

As Diretas Já acomodaram, com perfeição cirúrgica, os interesses do establishment político daqueles anos. Era sabido e consumado que o regime militar vivia, por impulso próprio, seus últimos dias e esforçava-se, ele mesmo, a transferir o poder para uma ordem mais aberta, sem rupturas institucionais. Cientes disso, aqueles que tinham expectativa de conquistar os meios políticos institucionais para si – até há pouco aglutinadas, mormente, sob o guarda-chuva do [P]MDB – quiseram assegurar que o receberiam íntegro, indiviso, tão absoluto quanto o detido pelos generais. Isso é, o instituto da Presidência da República haveria de manter-se sobre todas as coisas, sem permitir cogitar uma divisão orgânica de atribuições entre chefia de Estado (uma Casa Régia defensora das liberdades, como escolhera a Espanha pós-Franco, ou um presidente formal) e uma chefia de governo (um primeiro-ministro parlamentar), proposta cuja simples menção causava urticárias à massa de futuros candidatos ao Planalto. Recordemos que o mesmo já havia sucedido durante a breve experiência parlamentarista dos anos 1961 a 1963.  

Com as Diretas Já, a mentalidade popular brasileira foi moldada, precisamente, para confundir os conceitos de democracia e de voto direto para a chefia de Estado (um passar d’olhos pela Europa, novamente, bastaria a desmenti-los). O dano irreparável subsiste aos nossos dias.
  
E o impeachment de Collor? Convenhamos, nas fotos do período, mais chamativas que as caras-pintadas eram-no as bandeiras do PT. Casos de corrupção e ilegalidades muito mais prementes que os episódios de Fiats Elba  não fizeram cócegas a administrações anteriores. Sobretudo, Collor surgia de um partido insignificante e contrariava interesses do Congresso, onde não dispunha de base parlamentar.

Do movimento Fora Collor, ao cabo, o porta-voz foi um certo Lindberg Farias. Se hoje precisamos de luzes, aquela foi uma liderança que não demorou para assumir-se rubra – e agora é ele, Lindberg, aliado a um Collor redivivo, o investigado por corrupção endêmica.

O fogo de palha daqueles dias, se não deu em nada, marcou a história nacional para trocar o seis por meia dúzia. Que desperdício de energia criativa!

Como constatamos, era válida lá, como o é ora, a advertência do filósofo Olavo de Carvalho:

O que a massa sente e imagina não conta. O que conta é: quem comanda? Quem planejou? Quem subsidia? Qual a estratégia geral em que se insere o movimento? A massa, se surgir de dentro dela uma liderança antagônica aos organizadores iniciais, pode, é claro, mudar o curso das coisas, mas cadê essa liderança? Como ela não existe, os anticomunistas que participam dos protestos são a massa de idiotais úteis mais solícita que já existiu.

O pensador encerra com a mais bem-vinda mimese: "Tudo neste mundo é difícil e trabalhoso. Esperar de uma simples explosão emocional das massas uma transfiguração da realidade histórico-social é aquilo a que Eric Voegelin chamava ‘fé metastática’, uma doença gnóstica.”

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¹ Haveria uma terceira tendência exegética, a da patuleia petista, que se sente traída pela multidão e não sabe para onde dirigir sua raiva. Enquanto permanecerem atônitos, não são significativos.

² Leituras recomendadas sobre o tópico indicado:

- BERNARDIN, Pascal. Maquiavel pegadogo – ou o ministério da reforma psicológica. Campinas – SP: Cedet, 2013.
- BORK, Robert H. Coercing virtue: the worldwide rule of judges. Washington, D.C.: AEI Press, 2003.
- CARVALHO, Olavo de. A nova era e a revolução cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. 3. ed. revista e aumentada. Texto integral disponível online.
- CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contrarrevolução: edição comemorativa do cinquentenário da publicação. São Paulo: IPCO, 2009.
- GOLITSYN, Anatoliy. New lies for old. United States: Penguin Putnam & Children, 1990.
- HUXLEY, Aldous. Brave new world revisited. Texto integral disponível online.
- SANAHUJA, Juan Claudio, Mons. Poder global y religión universal. Buenos Aires: Vórtice, 2010.
- STORY, Christopher. The European Union collective: enemy of its Member States. Edward Harle Ltd., 2002.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ótimas sugestões de livros!

F.C.