quarta-feira, 19 de junho de 2013

Afinal, o que querem os combatentes? Ou: muito barulho por nada. Ou ainda: cuidado com aquilo que desejas...

“El tonto grita que negamos el problema cuando mostramos la falsedad de su solución favorita.” – Nicolás Gómez Dávila

(Thomas Cole, "The Course of Empire: Destruction", óleo sobre tela, 1836)
Os manifestantes de nossas praças de guerra estão mesmo de parabéns. A democracia pós-moderna nunca foi tão... moderna por estas bandas. É como 1789 sem os mercenários suíços e os filósofos iluministas (sem filósofo nenhum, na verdade), ou 1992 sem Collor. Bom, não exatamente sem Collor – já ninguém repara, mas ele segue lá.

Com ou sem violência, com ou sem partido, mais ou menos "enragées", o máximo que as massas [e os homens massa, diria Ortega y Gasset] articulam é a exigência de um alguém que faça algo, em algum lugar, contra alguma coisa que não se sabe bem o quê (ah!, é um "malaise" civilizacional, "Das Unbehagen in der Kultur"...), sendo cada vez mais provável que obtenham o que pedem e muito mais: que os detentores do poder aproveitem a deixa para reformarem as instituições um pouquinho mais próximas ao seu [deles] gosto – "to fundamentally transform the world to make it closer to the heart's desire", como propunha o velho adágio da Sociedade [Socialista] Fabiana. No caso, o gosto da opressão e o desejo de poder sem limites – o velho e bom espírito luciferino de revolta contra a estrutura mesma do real, em que cabeças de noz pretendem forçar o universo pelo buraco de agulha de suas percepções contingentes.

A baixa militância petista, cumpridora diligente dos comandos de sua cúpula, já é vista a capitalizar sobre a exigência difusa de "alguma mudança, alguma providência, alguma atitude" a qualquer custo. Esses sim estão organizados, e há muito, para alavancar um projeto de poder bem definido, contra o qual o único empecilho tem sido, ao largo da Nova República, a morosidade das instituições democráticas. Vós, briosos combatentes, tais como uma locomotiva desgovernada enfim estais vencendo a lei da inércia. Por não terdes maquinista, leme ou prumo, a isso se traduz descarrilar: joga-se fora o bebê com a água do banho, tudo a pretexto de "fazer alguma coisa" seja lá o que for. Dizem que "o importante é caminhar" e que "a utopia mostra a direção"... Quem caminha olhando para o sol pode deixar de avistar o precipício iminente. Tanto marcham, tanto lutam e praguejam, e para quê? Para o nada! Mas o nada não subsiste, quer na sociedade, quer na natureza. Todo vácuo de poder e objetivo vem preenchido cedo ou tarde.

Ora, o que querem eles? Tudo teria principiado a pretexto de um aumento tarifário sobre transporte coletivo e, num crescendo, veio a englobar qualquer reivindicação da metafísica influente, sobretudo as de almoço grátis. Mas, supondo que haja alguma racionalidade na grande marcha da vaca para o brejo, os jargões mais repetidos envolvem uma revolta contra a política institucional em geral e, dela, “A Corrupção”, ente [aparentemente] senciente.

Quem, contudo, em tese se opõe a acabar com A Corrupção? Quem não o quer, assim, em abstrato? Os petistas também o querem; querem-no o Sarney, o Collor, o Maluf, o Renan, o Lindberg (e como o quer, o Lindberg!) e tutti quanti, ou assim o dizem. Até Dirceu certamente se afirma contra A Corrupção. O PT criou-se para combatê-la, ela que seria um "vício do sistema burguês". Ô, raios! E quem seria a favor dela, então? Quem é o vosso inimigo? Caim, que matou Abel? A serpente que convenceu Eva? Kali, a deusa hindu da destruição?

Ocorre que Lula, Dirceu e Dilma adorariam "acabar com a corrupção" submetendo toda a vida nacional aos interesses de seu partido, o Moderno Príncipe, sem possibilidade de resistência a suas personalíssimas vontades. Se todos fossem compelidos à obediência pela força real ou iminente (como em Orwell) ou infantilizados pela dependência sistêmica e pela dissuasão psicológica (como em Huxley), não seria necessário "convencer" as bases pelo bolso, não é?.E que tal a ditadura? Para tanto, valer-se-iam de concentração de poder, cerceamento de liberdades tradicionais, supressão de instâncias deliberativas e, por fim e em suma, ideologização sub-reptícia de todos os aspectos da existência humana. Tudo de que precisam para justificá-lo resume-se àquilo que ora estão recebendo das ruas: mobilização. Qualquer mobilização. Tanto melhor se amorfa, vaga como um contrato de cláusulas gerais de adesão.

Sarney, Renan e Collor entendem "acabar com a corrupção" como torná-la desnecessária, transmutando os privilégios do coronelato em um instituto consuetudinário autoaplicável, e Márcio Thomaz Bastos, o defensor a soldo dos mensaleiros – enquanto ministro, nada menos que o consultor do governo para a elisão de crimes institucionais – publicou recente artigo em defesa dos protestos. Já o baixo clero fisiologista dos parlamentos pretende "acabar com a corrupção" ao pura e simplesmente torná-la legal e inescapável: tramitam velozes os projetos legislativos envolvendo eleição por listas partidárias fechadas e financiamento estatal das campanhas políticas.

Assim, ao passo que uns demandam ao trabalhador pobre, pagador de impostos, que sustente os "road trips" urbanos da estudantada abastada e maconheira, a liderança filopetista já se aproveita para alavancar, sob o pretexto de "fazer alguma coisa" e atender aos "anseios populares", a reforma política iníqua e gritantemente autoritária com que sonha há tantos anos, incluindo o "passe livre" da boa vida para a máquina partidária. Financiamento público de campanha significa transformar o oficialato dos partidos em verdadeiros burocratas públicos. Sem concurso e, sobretudo, sem qualquer obrigação para com o bem comum, pois a serviço exclusivo da tomada do poder.

Enquanto os manifestantes – refiro-me, agora, à suposta maioria de bem-intencionados, não aos terroristas originais que ainda tocam a boiada – não tiverem um consenso próprio de razões tangíveis, ou seja, não souberem formular sua pauta e tudo se resumir a "um sentimento difuso", um certo "mal-estar", não faltará quem lhes administre o remédio que bem entender.

Anseiam tanto por mudanças que jamais se detiveram a estudá-las; correm o sério risco de serem convertidos em seu efetivo instrumento à revelia. Transmutados não só em objeto das próprias pulsões, como todo o indivíduo que ingressa em uma multidão, mas sobretudo em brinquedo daqueles que, da anarquia, tiram proveito. Pobre, soberba juventude, uma vez mais submetida a técnicas de engenharia social, política e comportamental que os impede de relacionar conceitos abstratos e informações sensíveis. Acontece diante de seus próprios olhos: impondo sobre a cidade verdadeiro cárcere privado, deitam falar em "reforma agrária e reforma urbana"; conduzidos por uma vanguarda do atraso que vandaliza os parcos meios de subsistência de uma gente já pobre e sofrida, imaginam que tudo estará bem e que o saldo será o de um "protesto pacífico" se, assistindo de camarote ao terror, limitarem-se a  entoar para seus líderes que era tudo para ser "sem violência!". Como se não soubessem ser a presença deles próprios a condição de possibilidade para o extravasar de uma tal hubris. 

Aceitando ações fundamentalmente cerceadoras como libertárias e acumpliciando-se de fenômenos intrinsecamente violentos e injustos em nome da harmonia e da justiça (ao revés,  Santo Tomás ensina-nos que o verdadeiramente bom e verdadeiramente justo deve sê-los tanto em seus meios, quanto em seus fins), o sujeito, qual espécime de laboratório, acaba introduzido à distopia orwellana onde guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força; assim como caos é ordem; assassinato é nascimento; saque e depredação são solidariedade e construção de um país melhor. Tanto duplipensar, causa e conseqüência da mais endêmica dissonância cognitiva, introjetado tão violentamente por tamanha estimulação contraditória, traz como propósito único e deliberado incapacitar a mente a apreender, de forma imparcial e autônoma, qualquer resquício objetivo da realidade. Sem o princípio de não-contradição, o raciocínio humano é simplesmente inviável.          

Amigos, quereis que "alguém faça alguma coisa" contra "tudo o que está aí"? Eles farão, lépidos e fagueiros. E "tudo aquilo que aí está", pior do que é, pode sim ficar. Como aquela geração maravilhosa dos protestos globais de maio de 1968, do "é proibido proibir", que nos legou o Estado mais onipresente, os governos mais corrompidos, a sociedade mais estupidificada e o maior vazio de lideranças na história da humanidade.

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Leitura recomendada:

- Discurso do presidente francês Nicolas Sarkozy, então candidato ao dito cargo, frente ao lotado estádio de Bercy, Paris, em tradução de Leonardo Faccioni.

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