domingo, 23 de junho de 2013

De boas intenções...

"Os participantes de um movimento político normalmente ignoram seu fim, seu motivo e sua origem." – Nicolás Gómez Dávila

Ao passar os olhos sobre as redes sociais, tidas como origem de toda a agitação popular, percebo duas tendências exegéticas bastante claras frente aos últimos acontecimentos¹: estudiosos que concebem a política a longo prazo, em função de um bem comum objetivo e transcendente, encontram-se cautelosos e preocupados; valentes de bom coração, trôpegos curiosos e militantes que planejam para a próxima eleição estão eufóricos com tanto movimento, inédito à maioria.

Como apaixonado pelos clássicos, embora adorasse acompanhar o entusiasmo dos segundos, não me é dado segui-los. A bibliografia que tenho reunido ao longo de já longos e árduos anos não mo permite. Minha constituição intelectual, mesmo que não valha gran cousa, não mo permite. Eu não posso aceitar ser guiado como manada do nada ao lugar nenhum. Se a natureza não aceita o vazio, serei eu a proclamá-lo boa meta para a civilização?

Parafraseando Chesterton (mencionei a passagem lá pelos idos do Conclave, também, quando a tropa comemorava o "iminente fim da Igreja Católica" – a propósito, teria sido postergado?), a sabedoria da continuada investigação sobre a verdade, empreendida pelo homem em um contínuo de lá se vão quase três mil anos, permite-nos avaliar as coisas do modo com que comovem a humanidade, e não apenas pelas últimas notícias dos diários. E o que estou a ver – sinto muito, gostaria de poder ignorá-lo! – difere de todos os momentos que tenham, em qualquer contexto histórico, levado às grandes realizações do espírito. Nenhum deles deu-se assim. Ao contrário, essa que está aí foi a configuração perfeita para fortes reveses civilizacionais. Entre eles contam-se seus precedentes. E eu não posso me permitir calar ao ver filme repetido. Serei chato. Anunciarei o spoiler, sim. Porque a miséria e as balas, aqui, não são cenografia e festim.

Quando toda a agitação atingir sua encruzilhada, entre três vias apenas haverá por decidir: a do fogo de palha, que logo se consome e deixa pouco mais do que cinza e poeira; a de um crescendo autoritário, em que a mobilização de massa efetive-se como condição de possibilidade para a desinstitucionalização. A última, menos provável de todas, única capaz de deixar ao país um legado positivo, é o despontar de uma liderança iluminada. O diabo – com o perdão da palavra – é que, entre nós, esse vocábulo ("iluminada") reveste-se mesmo de conotações sobrenaturais, pois tal liderança ora não existe, e seu surgimento demandaria uma intervenção direta do Criador na História. É a esperança de um milagre.

Entrementes, vejamos as grandes manifestações cívicas, as verdadeiramente positivas. Estas são destinadas não a romper, mas a restaurar a ordem mais perfeita a uma dada politeia. Neste exato momento as encontramos quer na Europa, quer nos Estados Unidos, e diferem das nossas em forma e em substância, a um ponto tal que se faz visível: basta um bater de vistas. Dias atrás, eram quantos milhares, em Paris e por toda a França, contra a agenda do governo deles (idêntica à do nosso, apontemos, porque sacramentada desde as agências da ONU e coordenada pelas mesmas fundações transnacionais²)? E nos Estados Unidos? E qual o saldo? Efetivamente, os governantes de lá aquartelaram-se, temerosos. Hussein Obama, o Grande Irmão infanticida, está às turras pela descoberta de uma pequena parte da teia que teve de armar para proteger seus programas apátridas contra a ação cidadã. É que esses movimentos, lá, efetivamente são um empecilho aos projetos de poder dos governantes, porque trazem pautas e projetos completamente alheios à vontade dos últimos. São uma alternativa real.

Já o modelo de protesto que se trouxe para cá não foi o do civismo restaurador. Foi, em parte, o surgido nas periferias das capitais europeias, com a segunda geração de imigrantes de países muçulmanos, que, à diferença de seus pais – eternamente gratos pela acolhida redentora –, eis que sem conhecer os comos e porquês de onde se encontram, têm absolutamente toda a sua existência custeada pelos Estados, mas, ainda assim (porque assim!), guardam em seu âmago uma frustração voraz. Demandam do Estado, a qualquer custo, que obtenha mais meios de ação para desviar às suas vontades. Querem ser servidos com mais, e muito mais, como o monstro sem fundo da noite escura, cuja fome, se pudesse, devoraria o mundo inteiro sem quedar saciada. Fazendo-o, imaginam-se grandes rebeldes e matutos contestadores da ordem estabelecida.

É também o modelo dos ativistas de 1968, que, conforme já apontamos em comentário anterior, agindo exatamente assim, foram os responsáveis diretos pelo estado atual das coisas no ocidente. Pior: mesmo a pauta destes era infinitamente mais precisa, tanto em meios, quanto em fins, do que a que se está afirmando no momento presente.

Pior de tudo, traz os mesmos signos e agentes inconfundíveis de um terceiro elemento, surgido na esteira da experiência islamista europeia e levantina, mas aperfeiçoado para universalizar-se: os movimentos anárquicos e predatórios dos Occupies americanos, que incorporam a pura fúria disruptiva dos fanáticos de um lado, e a agenda de reengenharia comportamental muito cara aos pedagogos da academia, de outro, atualizando o discurso neomarxista para a era das redes. Lá, como cá, pautas, condutas, vocabulários de extrema-esquerda forçam sua dialética sobre governos em si mesmos esquerdistas. No mais das vezes, a juventude que deseja integrar a vanguarda dessas causas, de conteúdo necessariamente indefinido, sequer se dá conta de suas implicações. Não é preciso que se dê. Basta que a leve adiante. “O importante é caminhar...”, convence-os a elite de ideólogos que vê de sobre as brumas, do ponto supremo da nau.

As manifestações cívicas buscam a luz, e iluminam a constituição verdadeira dos povos. As  manifestações das hordas são noturnas em suas práticas, como em suas finalidades. As suas chamas projetam grandes sombras, e são as sombras que se espalham sobre o mundo.

Prudência - a rainha das virtudes cardeais.
Impactos políticos mediatos e imediatos
É óbvio que a persona de Dilma, ou as dos governadores pegos pelo furacão, foram fortemente comprometidas. Embora todos eles sigam dispondo de pleno tempo hábil a fazer limonada dos limões. Para o prefeito paulistano e socialista fabiano Fernando Haddad, por exemplo, não é qualquer sacrifício implodir o preço repassado aos usuários pelas passagens de ônibus e sair-se por reformador e herói, obliterando qualquer outra causa com o impacto de sua medida. Não é do seu bolso pessoal que sairão eventuais repasses às empresas do cartel. Mas nada do que se está esboçando exigir nas ruas – se é que há realmente alguma coesão para quando essas abstrações que se proferem tiverem de ser subsumidas ao reino dos fatos – implica qualquer dificuldade seja aos grupos, seja aos projetos de poder em curso no Brasil. Na verdade, acelera-os ambos em suas trajetórias.

Reduzamos nossa escala histórica. Vamos recobrar os dois movimentos de massa compositores do mito fundacional da Nova República: as Diretas Já e o impeachment de Collor de Mello. Seremos tolos ao ponto de querê-los espontâneos?

As Diretas Já acomodaram, com perfeição cirúrgica, os interesses do establishment político daqueles anos. Era sabido e consumado que o regime militar vivia, por impulso próprio, seus últimos dias e esforçava-se, ele mesmo, a transferir o poder para uma ordem mais aberta, sem rupturas institucionais. Cientes disso, aqueles que tinham expectativa de conquistar os meios políticos institucionais para si – até há pouco aglutinadas, mormente, sob o guarda-chuva do [P]MDB – quiseram assegurar que o receberiam íntegro, indiviso, tão absoluto quanto o detido pelos generais. Isso é, o instituto da Presidência da República haveria de manter-se sobre todas as coisas, sem permitir cogitar uma divisão orgânica de atribuições entre chefia de Estado (uma Casa Régia defensora das liberdades, como escolhera a Espanha pós-Franco, ou um presidente formal) e uma chefia de governo (um primeiro-ministro parlamentar), proposta cuja simples menção causava urticárias à massa de futuros candidatos ao Planalto. Recordemos que o mesmo já havia sucedido durante a breve experiência parlamentarista dos anos 1961 a 1963.  

Com as Diretas Já, a mentalidade popular brasileira foi moldada, precisamente, para confundir os conceitos de democracia e de voto direto para a chefia de Estado (um passar d’olhos pela Europa, novamente, bastaria a desmenti-los). O dano irreparável subsiste aos nossos dias.
  
E o impeachment de Collor? Convenhamos, nas fotos do período, mais chamativas que as caras-pintadas eram-no as bandeiras do PT. Casos de corrupção e ilegalidades muito mais prementes que os episódios de Fiats Elba  não fizeram cócegas a administrações anteriores. Sobretudo, Collor surgia de um partido insignificante e contrariava interesses do Congresso, onde não dispunha de base parlamentar.

Do movimento Fora Collor, ao cabo, o porta-voz foi um certo Lindberg Farias. Se hoje precisamos de luzes, aquela foi uma liderança que não demorou para assumir-se rubra – e agora é ele, Lindberg, aliado a um Collor redivivo, o investigado por corrupção endêmica.

O fogo de palha daqueles dias, se não deu em nada, marcou a história nacional para trocar o seis por meia dúzia. Que desperdício de energia criativa!

Como constatamos, era válida lá, como o é ora, a advertência do filósofo Olavo de Carvalho:

O que a massa sente e imagina não conta. O que conta é: quem comanda? Quem planejou? Quem subsidia? Qual a estratégia geral em que se insere o movimento? A massa, se surgir de dentro dela uma liderança antagônica aos organizadores iniciais, pode, é claro, mudar o curso das coisas, mas cadê essa liderança? Como ela não existe, os anticomunistas que participam dos protestos são a massa de idiotais úteis mais solícita que já existiu.

O pensador encerra com a mais bem-vinda mimese: "Tudo neste mundo é difícil e trabalhoso. Esperar de uma simples explosão emocional das massas uma transfiguração da realidade histórico-social é aquilo a que Eric Voegelin chamava ‘fé metastática’, uma doença gnóstica.”

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¹ Haveria uma terceira tendência exegética, a da patuleia petista, que se sente traída pela multidão e não sabe para onde dirigir sua raiva. Enquanto permanecerem atônitos, não são significativos.

² Leituras recomendadas sobre o tópico indicado:

- BERNARDIN, Pascal. Maquiavel pegadogo – ou o ministério da reforma psicológica. Campinas – SP: Cedet, 2013.
- BORK, Robert H. Coercing virtue: the worldwide rule of judges. Washington, D.C.: AEI Press, 2003.
- CARVALHO, Olavo de. A nova era e a revolução cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. 3. ed. revista e aumentada. Texto integral disponível online.
- CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contrarrevolução: edição comemorativa do cinquentenário da publicação. São Paulo: IPCO, 2009.
- GOLITSYN, Anatoliy. New lies for old. United States: Penguin Putnam & Children, 1990.
- HUXLEY, Aldous. Brave new world revisited. Texto integral disponível online.
- SANAHUJA, Juan Claudio, Mons. Poder global y religión universal. Buenos Aires: Vórtice, 2010.
- STORY, Christopher. The European Union collective: enemy of its Member States. Edward Harle Ltd., 2002.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Afinal, o que querem os combatentes? Ou: muito barulho por nada. Ou ainda: cuidado com aquilo que desejas...

“El tonto grita que negamos el problema cuando mostramos la falsedad de su solución favorita.” – Nicolás Gómez Dávila

(Thomas Cole, "The Course of Empire: Destruction", óleo sobre tela, 1836)
Os manifestantes de nossas praças de guerra estão mesmo de parabéns. A democracia pós-moderna nunca foi tão... moderna por estas bandas. É como 1789 sem os mercenários suíços e os filósofos iluministas (sem filósofo nenhum, na verdade), ou 1992 sem Collor. Bom, não exatamente sem Collor – já ninguém repara, mas ele segue lá.

Com ou sem violência, com ou sem partido, mais ou menos "enragées", o máximo que as massas [e os homens massa, diria Ortega y Gasset] articulam é a exigência de um alguém que faça algo, em algum lugar, contra alguma coisa que não se sabe bem o quê (ah!, é um "malaise" civilizacional, "Das Unbehagen in der Kultur"...), sendo cada vez mais provável que obtenham o que pedem e muito mais: que os detentores do poder aproveitem a deixa para reformarem as instituições um pouquinho mais próximas ao seu [deles] gosto – "to fundamentally transform the world to make it closer to the heart's desire", como propunha o velho adágio da Sociedade [Socialista] Fabiana. No caso, o gosto da opressão e o desejo de poder sem limites – o velho e bom espírito luciferino de revolta contra a estrutura mesma do real, em que cabeças de noz pretendem forçar o universo pelo buraco de agulha de suas percepções contingentes.

A baixa militância petista, cumpridora diligente dos comandos de sua cúpula, já é vista a capitalizar sobre a exigência difusa de "alguma mudança, alguma providência, alguma atitude" a qualquer custo. Esses sim estão organizados, e há muito, para alavancar um projeto de poder bem definido, contra o qual o único empecilho tem sido, ao largo da Nova República, a morosidade das instituições democráticas. Vós, briosos combatentes, tais como uma locomotiva desgovernada enfim estais vencendo a lei da inércia. Por não terdes maquinista, leme ou prumo, a isso se traduz descarrilar: joga-se fora o bebê com a água do banho, tudo a pretexto de "fazer alguma coisa" seja lá o que for. Dizem que "o importante é caminhar" e que "a utopia mostra a direção"... Quem caminha olhando para o sol pode deixar de avistar o precipício iminente. Tanto marcham, tanto lutam e praguejam, e para quê? Para o nada! Mas o nada não subsiste, quer na sociedade, quer na natureza. Todo vácuo de poder e objetivo vem preenchido cedo ou tarde.

Ora, o que querem eles? Tudo teria principiado a pretexto de um aumento tarifário sobre transporte coletivo e, num crescendo, veio a englobar qualquer reivindicação da metafísica influente, sobretudo as de almoço grátis. Mas, supondo que haja alguma racionalidade na grande marcha da vaca para o brejo, os jargões mais repetidos envolvem uma revolta contra a política institucional em geral e, dela, “A Corrupção”, ente [aparentemente] senciente.

Quem, contudo, em tese se opõe a acabar com A Corrupção? Quem não o quer, assim, em abstrato? Os petistas também o querem; querem-no o Sarney, o Collor, o Maluf, o Renan, o Lindberg (e como o quer, o Lindberg!) e tutti quanti, ou assim o dizem. Até Dirceu certamente se afirma contra A Corrupção. O PT criou-se para combatê-la, ela que seria um "vício do sistema burguês". Ô, raios! E quem seria a favor dela, então? Quem é o vosso inimigo? Caim, que matou Abel? A serpente que convenceu Eva? Kali, a deusa hindu da destruição?

Ocorre que Lula, Dirceu e Dilma adorariam "acabar com a corrupção" submetendo toda a vida nacional aos interesses de seu partido, o Moderno Príncipe, sem possibilidade de resistência a suas personalíssimas vontades. Se todos fossem compelidos à obediência pela força real ou iminente (como em Orwell) ou infantilizados pela dependência sistêmica e pela dissuasão psicológica (como em Huxley), não seria necessário "convencer" as bases pelo bolso, não é?.E que tal a ditadura? Para tanto, valer-se-iam de concentração de poder, cerceamento de liberdades tradicionais, supressão de instâncias deliberativas e, por fim e em suma, ideologização sub-reptícia de todos os aspectos da existência humana. Tudo de que precisam para justificá-lo resume-se àquilo que ora estão recebendo das ruas: mobilização. Qualquer mobilização. Tanto melhor se amorfa, vaga como um contrato de cláusulas gerais de adesão.

Sarney, Renan e Collor entendem "acabar com a corrupção" como torná-la desnecessária, transmutando os privilégios do coronelato em um instituto consuetudinário autoaplicável, e Márcio Thomaz Bastos, o defensor a soldo dos mensaleiros – enquanto ministro, nada menos que o consultor do governo para a elisão de crimes institucionais – publicou recente artigo em defesa dos protestos. Já o baixo clero fisiologista dos parlamentos pretende "acabar com a corrupção" ao pura e simplesmente torná-la legal e inescapável: tramitam velozes os projetos legislativos envolvendo eleição por listas partidárias fechadas e financiamento estatal das campanhas políticas.

Assim, ao passo que uns demandam ao trabalhador pobre, pagador de impostos, que sustente os "road trips" urbanos da estudantada abastada e maconheira, a liderança filopetista já se aproveita para alavancar, sob o pretexto de "fazer alguma coisa" e atender aos "anseios populares", a reforma política iníqua e gritantemente autoritária com que sonha há tantos anos, incluindo o "passe livre" da boa vida para a máquina partidária. Financiamento público de campanha significa transformar o oficialato dos partidos em verdadeiros burocratas públicos. Sem concurso e, sobretudo, sem qualquer obrigação para com o bem comum, pois a serviço exclusivo da tomada do poder.

Enquanto os manifestantes – refiro-me, agora, à suposta maioria de bem-intencionados, não aos terroristas originais que ainda tocam a boiada – não tiverem um consenso próprio de razões tangíveis, ou seja, não souberem formular sua pauta e tudo se resumir a "um sentimento difuso", um certo "mal-estar", não faltará quem lhes administre o remédio que bem entender.

Anseiam tanto por mudanças que jamais se detiveram a estudá-las; correm o sério risco de serem convertidos em seu efetivo instrumento à revelia. Transmutados não só em objeto das próprias pulsões, como todo o indivíduo que ingressa em uma multidão, mas sobretudo em brinquedo daqueles que, da anarquia, tiram proveito. Pobre, soberba juventude, uma vez mais submetida a técnicas de engenharia social, política e comportamental que os impede de relacionar conceitos abstratos e informações sensíveis. Acontece diante de seus próprios olhos: impondo sobre a cidade verdadeiro cárcere privado, deitam falar em "reforma agrária e reforma urbana"; conduzidos por uma vanguarda do atraso que vandaliza os parcos meios de subsistência de uma gente já pobre e sofrida, imaginam que tudo estará bem e que o saldo será o de um "protesto pacífico" se, assistindo de camarote ao terror, limitarem-se a  entoar para seus líderes que era tudo para ser "sem violência!". Como se não soubessem ser a presença deles próprios a condição de possibilidade para o extravasar de uma tal hubris. 

Aceitando ações fundamentalmente cerceadoras como libertárias e acumpliciando-se de fenômenos intrinsecamente violentos e injustos em nome da harmonia e da justiça (ao revés,  Santo Tomás ensina-nos que o verdadeiramente bom e verdadeiramente justo deve sê-los tanto em seus meios, quanto em seus fins), o sujeito, qual espécime de laboratório, acaba introduzido à distopia orwellana onde guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força; assim como caos é ordem; assassinato é nascimento; saque e depredação são solidariedade e construção de um país melhor. Tanto duplipensar, causa e conseqüência da mais endêmica dissonância cognitiva, introjetado tão violentamente por tamanha estimulação contraditória, traz como propósito único e deliberado incapacitar a mente a apreender, de forma imparcial e autônoma, qualquer resquício objetivo da realidade. Sem o princípio de não-contradição, o raciocínio humano é simplesmente inviável.          

Amigos, quereis que "alguém faça alguma coisa" contra "tudo o que está aí"? Eles farão, lépidos e fagueiros. E "tudo aquilo que aí está", pior do que é, pode sim ficar. Como aquela geração maravilhosa dos protestos globais de maio de 1968, do "é proibido proibir", que nos legou o Estado mais onipresente, os governos mais corrompidos, a sociedade mais estupidificada e o maior vazio de lideranças na história da humanidade.

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Leitura recomendada:

- Discurso do presidente francês Nicolas Sarkozy, então candidato ao dito cargo, frente ao lotado estádio de Bercy, Paris, em tradução de Leonardo Faccioni.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Protestos e protestáveis: de como falsos movimentos sociais corrompem causas legítimas


“Suponhamos que surja em uma rua grande comoção a respeito de alguma coisa, digamos, um poste de iluminação a gás, que muitas pessoas influentes desejam derrubar. Um monge de batina cinza, que é o espírito da Idade Média, começa a fazer algumas considerações sobre o assunto, dizendo à maneira árida da Escolástica: «Consideremos primeiro, meus irmãos, o valor da luz. Se a luz for em si mesma boa…». Nesta altura, o monge é, compreensivelmente, derrubado. Todo mundo corre para o poste e o põe abaixo em dez minutos, cumprimentando-se mutuamente pela praticidade nada medieval. Mas, com o passar do tempo, as coisas não funcionam tão facilmente. Alguns derrubaram o poste porque queriam a luz elétrica; outros, porque queriam o ferro velho; alguns mais, porque queriam a escuridão, pois seus objetivos eram maus. Alguns se interessavam pouco pelo poste; outros, muito. Alguns agiram porque queriam destruir os equipamentos municipais. Outros porque queriam destruir alguma coisa. Então, aos poucos e inevitavelmente, hoje, amanhã, ou depois de amanhã, voltam a perceber que o monge, afinal, estava certo, e que tudo depende de qual é a filosofia da luz. Mas o que poderíamos ter discutido sob a lâmpada a gás, agora devemos discutir no escuro.” ("Hereges", G.K. Chesterton)

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As últimas noites registraram cenas de guerra civil em diversas metrópoles do país. A causa alegada: a elevação das tarifas para o transporte público urbano. Pois sim! É dito que o brasileiro é um povo que leva mais em conta sua carteira do que a vida de seu irmão, e pode haver algum fundo de verdade nisso. Enquanto cinquenta mil cidadãos têm suas vidas ceifadas a cada ano diante da simbiose entre governo e narcotráfico, ninguém move uma palha. Ou enquanto bebês são mutilados pelas próprias mães, sob a chancela do Estado e incentivo da grande imprensa. Tampouco quando a corrupção faz-se endêmica, políticos escolhem vencedores e perdedores com seu regime de fomento industrial fascistóide e inflacionam a moeda, transferindo renda dos mais necessitados aos mais ricos; ou pelas distorções representativas brutais que se acentuam nos parlamentos; pela falência do pacto federativo e pelas revisões judiciárias da lei positiva que, quotidianamente, tripudiam sobre o direito natural. Nem se manifestam ao verificar como pedófilos transnacionais ditam a política educacional; a carga tributária avança a patamares confiscatórios; progride a perseguição antirreligiosa; a pátria, antes miscigenada, vem dividida em raças ideológicas; e seu território, em uma colcha de retalhos de "nações indígenas", onde sequer as Forças Armadas podem ingressar. Não obstante, aumente-se em um vintém o valor das passagens de ônibus e – fiat lux! Vira-se a mesa ao ponto de agredir policiais, destruir equipamentos públicos e bens históricos inestimáveis, arriscar o patrimônio próprio e o alheio e ameaçar a integridade de transeuntes inocentes, como em querela de vida ou morte.

Todavia, pode-se mesmo afirmar que massas de manobra sectárias representem o povo? De forma alguma. O povo brasileiro não é dado a expedientes de turba, nem covarde ao extremo de procurar o anonimato para atos de depravação e catarse. Os criminosos in casu são soldados. Estão a cumprir ordens. Tal espécie de balbúrdia em escala não se dissemina espontaneamente. Requer organização e planejamento intensivos. Sendo assim, a quem pertenceria "a mão que balança o berço"? Quem detém tamanha capacidade de mobilização para o ilícito com fins políticos no Brasil? A indagação não quer calar. Alguém ousa responder-lhe?

O fato é que, se o estopim de todos os atos a dominar os jornais efetivamente fosse o preço do referido serviço público, nenhum dos movimentos alegadamente sociais que se apresentam estaria apto a resolver o problema. Limitam-se todos a demandar almoços grátis, se é que encontram tempo hábil para algo demandar entre as copiosas tarefas de arrebentar um monumento aqui e apedrejar uns funcionários públicos (muito mais pobres do que eles) acolá.

Não bastasse a cartelização oficiosa (perdoem-me a tautologia, já que qualquer cartel ou monopólio só se faz possível mediante garantia estatal) do atendimento à exigência por transporte coletivo, pela qual empresas são simplesmente proibidas de oferecer serviços melhores a custos menores que os das preferidas pelo governo de turno, há ainda que considerar os efeitos perversos da demanda infinita. É o resultado direto da legislação que compele as concessionárias, mediante tungada estatal, a oferecer gratuidades e subsídios a parcelas significativas de usuários (e.g., estudantes universitários de classe média alta) às expensas de todos os demais (e.g., trabalhadores de classe média baixa sem padrinhos políticos). Tais realidades, nenhum dos chamados “Movimentos Passe Livre” dispõe-se a enfrentar. Na verdade, pretendem ampliar a dose do veneno. E de veneno eles entendem. Tanto quanto o fazem de barricadas e coquetéis molotov.

A tudo isso poderia opor-se o oráculo do senso comum (um desses que se saem pré-moldados das universidades brasileiras): "o transporte urbano é essencial à economia! Sendo um serviço público de primeira necessidade, não deveria ser relegado à iniciativa privada!"

Responda-se com toda a veemência: tem razão! É injustificável que um serviço tão fundamental quanto o transporte de Sr. Fulano do ponto A, onde vive porque lhe é conveniente, ao ponto B, ao qual deseja chegar por seu particularíssimo interesse, possa ser oferecido livremente pelo Sr. Ciclano, motorista apto, proprietário de veículo regular, interessado em conduzir Sr. Fulano de forma condizente ao melhor gozo das faculdades cognitivas de ambos, sem prejuízos a terceiros (beneficiando, aliás, demais usuários pelo caminho). É serviço demasiado complexo para que seja relegado a pessoas livres, atomizadas! Algum burocrata tem de planejar o trajeto, ora pois. Imaginem só se deixássemos, digamos, a produção e a distribuição de alimentos ao encargo da iniciativa privada. Estaríamos todos fadados a morrer de inanição, inteiramente dependentes da cobiça caótica de quitandeiros, supermercadistas, horticultores, agricultores e pecuaristas privados, sem esse aprazível vale-racionamento mensal de... Ups!, estamos falando do Brasil, não é? Pensava que fosse de Cuba. Perdão.
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Leituras recomendadas:

- Brincando de Revolução, por Rodrigo Constantino
- O casamento do estado-babá com o estado prevaricador, por Reinaldo Azevedo
- Protestos em São Paulo e as janelas quebradas, por Flávio Morgenstern