sexta-feira, 1 de março de 2013

In saecula saeculorum


Não houvesse a fé, que inconcebível seria a instituição Igreja! Quão extraordinária é a continuidade do Corpo do Doce Cristo em Terra, que surpreende os juristas seculares quando, obedecendo ao Legislador do Eterno, busca precedentes na escala dos séculos e milênios!

Assim foi quando o exímio teólogo Joseph Aloisius Ratzinger, seguindo precedente deixado por São Celestino V no Ano de Nosso Senhor de 1294, decidiu, em diálogo de sua alma com Deus, abdicar a função de Sumo Pontífice da Igreja Católica e pastor de um bilhão de almas por todo o mundo, dando seqüência à sucessão apostólica e passando a servir à Igreja em retiro e oração.

Em verdade, dentro de poucos dias reunir-se-ão em conclave brilhantes e santos homens  pecadores, sim, porquanto homens são, mas santificados pela investidura nos séculos de uma Tradição cuja continuidade, diante de tais e tantos homens, apenas o Espírito Santo justifica  e, tudo leva a crer, escolherão a suceder nosso amado Bento XVI aquele que Deus julgar necessário ao Seu tempo. É dizer, um Papa não serve ao tempo dos homens, senão para dar-nos o vislumbre das verdades inegociáveis do tempo de Deus, em uma escala que tão somente a Igreja una e santa pode aferir.

Parafraseando G.K. Chesterton, o católico é um homem dotado de dois mil anos de vivência:
"Isto significa, se o presenciarmos ainda mais, que uma pessoa, ao se converter, cresce e se eleva ao pleno humanismo. Julga as coisas do modo como elas comovem a humanidade, e a todos os países e em todos os tempos; e não somente segundo as últimas notícias dos diários. Se um homem moderno diz que sua religião é o espiritualismo ou o socialismo, esse homem vive integralmente no mundo mais moderno possível, quer dizer, no mundo dos partidos." (CHESTERTON, G.K. Por que me converti ao catolicismo.)
Bem entendido, seja quem for o escolhido sob o precedente de "Tu es Petrus", instituído por ninguém menos que o Verbo primordial encarnado, será ele um conservador de verdades tão antigas quanto o mundo (e, pois, portador de um amor tão profundo quanto as fundações da Terra) diante de um tempo titubeante e ávido por livrar-se de suas raízes. É que as raízes são tomadas por amarras, sem que ninguém aponte ao moderno, disto, que irá tombar. 

Dadas as condições, mais do que nunca é verdadeira a assertiva de Chesterton: "se o Papa não existisse, seria preciso inventá-lo."

Os tempos de sede vacante, o interregno episcopal da Sé de Roma, têm atiçado as fantasias de todos os poderes sociais que sofrem a concorrência da Igreja. É compreensível, pois a autoridade moral inquebrantável do catolicismo vem sendo a pedra no sapato de césares e brancaleones desde os tempos bíblicos. Toda uma escola filosófica  o marxismo frankfurtiano   desenvolveu-se com o fim declarado de varrer a influência cristã da cultura ocidental para, só então, promover a revolução política. São os mais interessados em "reformar o catolicismo" desde dentro. Para o seu próprio bem...

Em termos sociológicos, é possível vincular a legitimidade da Igreja inteiramente à tradição (do latim traditio, entrega – a herança que se transmite entre as gerações de fiéis). Embora a proporção nominal de católicos na população dos países desenvolvidos tenha sucumbido, o prestígio do magistério bimilenar do catolicismo influencia, graças à sua coerência, mesmo aqueles que não se querem vinculados à religião institucional. Em época tão interessada pela popularidade instantânea, é curioso observar como, sempre que a Igreja insinuou aberturas hermenêuticas sobre seus dogmas e princípios, o número e a assiduidade de seus fiéis foram reduzidos. “A Igreja, ao escancarar suas portas, quis facilitar a entrada aos de fora, sem pensar que mais facilitava a saída aos de dentro”, atesta o espirituoso Nicolás Gómez Dávila. Ao considerar a aprovação das massas, é bom sopesar que o gênero próximo à Igreja é o Deus vivo, e o Deus vivo, para persistir na Verdade, foi crucificado pelos homens.

Sim, a Verdade... Quid est veritas?  interrogou Pilatos e lavou suas mãos. Diz-se que é relativa, como se diz de tudo o mais, e tudo parece efêmero em nosso tempo. O fluxo de informações instantâneas mantém a mente sempre ocupada, incapacitada para a reflexão e organização do conhecimento. As leis do Estado são inescrutáveis, quer por seu volume, quer por sua inconstância. Heróis surgem e esvaecem em questão de horas, e pelas causas mais banais. Mesmo a vida é tolhida a qualquer momento, em qualquer esquina, por bem menos que trinta moedas de prata. Será difícil perceber, pois, que o diferencial da Igreja  sua diferença específica para tudo o mais que nos é ofertado  está justamente em sua permanência?

Quem atravessa as portas de uma catedral católica, faça-o em Manhattan ou na Zâmbia, cumpre a travessia para um mundo além do espaço e do tempo. Participa da Eternidade. Nenhum outro recurso à disposição do homem permite encarar a humanidade assim, em seus olhos; conhecê-la a um só tempo em seu todo e em seu íntimo; perscrutar, mesmo que de relance, a completude do universo e das eras na presença total do Criador. Dos valores à arquitetura, tudo conduz à idade das estrelas.

Se a Igreja abrisse mão de sua fidelidade à democracia dos séculos para agradar a esta década, estaria arruinada. Diluir-se-ia no grande caldo das vaidades que transitam e somem antes da segunda alvorada. Não, nenhum Papa teria autoridade para tanto. A Igreja de nosso tempo, daqueles que hoje transitam no mundo, é fiel depositária de tesouros da alma humana sobre os quais impende o dever de legá-los às gerações futuras. Quer o mundo goste, quer não. Os césares nunca gostaram. Não obstante, a Igreja está aí, imperando sobre a Cidade Eterna de Roma. Os césares, não. 

Nesta hora de incertezas, recordemos a exortação das Escrituras tão cara a nossos Pontífices: nolite timere! Não tenhais medo! Confiemos no Espírito  o Santo, e o dos séculos. E que viva a Igreja Católica! Vivamo-la, em comunhão com Pedro, gozando a divina promessa da imortalidade de tudo o que foi, é e será sempre bom, belo e justo. A fé que não se curvou a imperadores, bárbaros, reis e saqueadores não será ludibriada pelo veneno das mídias ou pela incompreensão das vítimas do sistema [des]educacional da alta modernidade. Quando a Alta Modernidade findar, a Igreja seguirá seu caminho rumo à Cidade de Deus. Em oitocentos anos, o legado intelectual e espiritual de Bento XVI será tão válido quanto o é, hoje, o precedente de Celestino V, mesmo que ninguém, então, recorde os governantes das potências deste tempo e os âncoras de blogs e jornais. Eles constroem sobre areia. Tu és pedra...

Está escrito: as portas do inferno não prevalecerão!

5 comentários:

Tiago Bana Franco disse...

Muito bom!

Unknown disse...

Fantástico, é importante e, digamos, regozijante ver que há muitas pessoas ainda importadas com a manutenção e a vitalidade dos princípios da Igreja!

Dom Antonio Carlos Rossi Keller disse...

Parabéns por este teu artigo. Como outros, ele demonstra uma visão de conhecimento e de absoluta coerência em relação à finalidade e à Missão da Igreja. Forte abraço.

Luciano Perim disse...

Bendito seja Deus que te inspirou. Parabéns pelo ótimo artigo.

Anônimo disse...

"Quando uma leitura eleva o espírito, inspira sentimentos nobres e de coragem, não se deve procurar outra regra para julgar a obra; é boa e feita por mão de mestre." - La Bruyère

Parabéns, Leonardo! Texto magnífico!

F.C.