segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Oscar 2013: entre o cinema e a política


A sétima arte é um retrato valioso da passagem das eras, mesmo se inclinada à ficção. Basta lembrar os grandes épicos da década de 1950: relatos bíblicos como Os Dez Mandamentos (1956), a apologia cristã de Ben-Hur (1959) e as aventuras de El Cid (1961) apresentavam um mundo de fronteiras bem delineadas entre o bem e o mal, acompanhando a polarização da Guerra Fria. Grandes thrillers como Intriga Internacional (North by Northwest, 1959) e O Homem que Sabia Demais (1956) acompanhavam o mesmo espírito, enquanto romances e séries arrancavam suspiros das plateias em favor da família tradicional: a verdadeira magia da união entre marido, mulher e filhos era o desfecho natural de qualquer estória, e o lar de encantadores contos como A Feiticeira (Bewitched, 1964-1972) não poderia ser mais convencional.

De lá para cá, tudo mudou. A esquerda dominou a cena cultural. Entre Gramsci e os pensadores da chamada Escola de Frankfurt, a tecnologia para a desconstrução da cultura judaico-cristã no Ocidente aprimorou-se e o front foi objeto de um bombardeio sem par. Desde o advento de figuras tais quais Michael Moore, Hollywood assume abertamente sua posição como vanguarda da reengenharia de mentalidades. Os filmes do último ano mostram-no com clareza.

É o caso de Lincoln, cinebiografia dirigida por Steven Spielberg, cuja acuidade, como se vê aqui, abre espaço para severas ressalvas.

Consola ter a companhia do Instituto Ludwig von Mises Brasil na árdua tarefa de desmistificar ao público brasileiro, sempre tão permeável à propaganda audiovisual, alguns dos ídolos de barro criados pelos colaboracionistas de plantão.

Há que considerar o momento do lançamento do filme, convertido este em uma fábula acerca de um "homem forte" à frente do Poder Executivo destinado a forçar, sobre um parlamento dividido e reticente, uma reforma legislativa radical. O Lincoln imaginário de Spielberg, está claro, é um Obama de casaca.

Uma pena o texto, embora as mencionando, não se aprofundar nas exposições de Thomas DiLorenzo e Tom Woods a respeito do que, segundo eles, foi a verdadeira causa motriz de Lincoln em sua guerra total: aniquilação da autonomia federativa e concentração do poder (leia-se receitas) na capital federal.  Nesse aspecto, com efeito, o presidente obteve sucessos épicos que se fazem sentir ainda em nossos dias. 

A entrega dos Academy Awards deu-se na noite passada e, caracterizando a submissão de Hollywood à agenda corrente de Washington, o envelope com a premiação de Melhor Filme do ano foi revelado diretamente da Casa Branca, por uma Michelle Obama em costumes e circunstâncias dignas de Cleópatra. Que momento glorioso para o regime seria, então, ter Lincoln como o grande vencedor da noite!

Contudo, a película agraciada pelo Oscar foi Argo. Nem por isso a vitória do grupo governante foi menor. A produção, focada na crise diplomática de 1979 pela invasão da embaixada americana em Teerã, é recheada de distorções anti-ocidentais para mitigar o papelão do então governo esquerdista de Carter, justificando o extremismo islâmico da Revolução Iraniana segundo a tese do orientalismo ("o Oriente é uma invenção ocidental"). O evento, historicamente relacionado à incompetência do governo democrata, foi, num passe de mágica, jogado na conta de uma suposta política externa neoconservadora. O inaceitável em tal tese (sem falar na acurácia histórica) é posicionar os povos do oriente como moralmente irresponsáveis, o que, ipso facto, faz com que sejam realmente merecedores de tutela estrangeira.

A indústria cultural americana está entusiasmadíssima para fazer-se dependente do Estado. A hagiologia sobre Lincoln e a revisão pró-democrata da história recente são, assim, marcas indeléveis dos tempos em que vivemos.

No páreo dos nomeados à estatueta esteve, ainda, Les Misérables. O musical traz o enredo do monumental romance de Victor Hugo, que trata como heróis os seguidores do general francês Lamarque, executor do massacre dos camponeses católicos e monarquistas da Vendéia na sucessão da revolução francesa. É uma ode à mentalidade revolucionária (“Vermelho – o sangue de homens furiosos!” é mesmo de um lirismo exemplar...) que, dado o momentum, bem poderia ser lida como elegia para o obâmico Occupy Wallstreet.

Também disputavam o título A Hora mais Escura (Zero Dark Thirty), que espetaculariza a captura de Obama pelo commander-in-chief Osama (ou vice-versa); Amour, um tocante drama humano, mas que finda em uma aparente defesa da eutanásia, e A Vida de Pi, visualmente belo (pelo que recorda notável propaganda ambientalista de Avatar), imbuindo uma salada multiculturalista semelhante à velha "metáfora do elefante", tudo a fim de equiparar e liquefazer as religiões (salvai-nos, Monsenhor Sanahuja!). O Oscar 2013 foi, pois, de cabo a rabo, a consagração do programa cultural da esquerda americana.  

Ao menos a noite legou-nos uma aprazível performance de Skyfall, canção tema do filme homônimo de um outrora anticomunista agente britânico, por uma Adele sempre surpreendente. Como o James Bond de Skyfall, o Ocidente apresenta um quadro psicológico pleno de crescentes transtornos, mas ainda guarda algo de seu encanto único. O mesmo vale para o Oscar, momento áureo da mais jovem de suas artes.

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