quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Esses soberbos ateus

A agressiva multiplicação do ateu militante é um fenômeno demasiado contemporâneo. Todos já cruzamos com algum e, ao que consta, passaram a constituir verdadeiras congregações virtuais, cuja propaganda mereceria outro ensaio. 

Trata-se de figura que faz de sua crença na descrença um cavalo de batalha e sai à caça de conversões, sem dar uma pinoia à contradição aparente. Quase sempre de contestável alfabetização, mas gozando de escolaridade tão volumosa quanto superficial (como apenas a massificação do ensino poderia consagrar), ele sustenta qual autômato a máxima: "fui criado em ambiente católico, mas, à medida que estudei e adquiri conhecimentos..." Que conhecimentos, cara-pálida? Acaso sua cultura manualesca – misto de televisão e pré-vestibular – supera dois mil e quinhentos anos de filosofia e teologia, ou o livre debate do qual participaram tantas das maiores mentes da história universal? 

Em verdade, o tipo não é novo. Chesterton já fazia com eles um pedagógico picadinho, numa tradição que Thomas Woods e outros vêm retomando junto ao grande público dos Estados Unidos. Rejeitam a religião sem jamais a terem conhecido - sobremaneira no Brasil, onde tantos sacerdotes põem as almas a perder por seu imanentismo apostático, ou simplesmente por seu desobediente mau gosto, que faz da Igreja dessa terra, patronesse-mor da arte ocidental noutros tempos e paragens, uma colecionadora de prédios medonhos e expressões bregas. Para nosso maior desastre, rompeu com o legado civilizacional que deveria portar. 

A constatação entristece-me sobretudo porque, como dito por algum grande, quanto melhor conheço a História da Igreja, mais a amo. É um patrimônio monumental que não escapa aos sentidos: segue em pé por todo o mundo, pronto a ser admirado. São os véus de uma soberba sempre mais disseminada a impedir que quem o queira ver, veja. E justo esses julgam-se os iluminados, prontos a reformar o mundo e fazer queimar os infiéis desta nova era. 

A seu modo, o ateu é um crente – na terrível acepção por ele próprio conferida à palavra. Sob a fachada de deificação do método científico (que, em si mesmo, não é a ciência), o ateu opta pela negação da transcendência sem, para tanto, dispor de qualquer fundamento verificável segundo seus próprios critérios. A descrença, com todo seu pretenso charme contestatório, não reside no ateísmo, mas no agnosticismo – uma insatisfação muito humana pela intangibilidade da metafísica. 

Há na contenda uma frequente incompreensão da própria noção de divindade. Quando, por um milagre, conseguem-se apresentar a um neo-ateu as reflexões do Doutor Angélico, ou do insuspeito (porque pagão) Aristóteles, percebe-se que a criaturinha desconhece como prova coisa que não se dê em laboratório, com todo o aparato cartesiano a postos. Em sua presunção juvenil, muitos dentre eles imaginam que o Deus adorado pelos cristãos seja davvero um velho forte e barbudo, como no lápis de Michelangelo, a soltar raios por sobre as nuvens. De fato, para derrubar um tal conto de fadas, não seriam necessários grandes dispêndios intelectuais. Não obstante, foi esse o Deus dos filósofos por quase dois milênios! Quão imbecis eram Agostinho e Leibniz! 

A nem tão sutil sutileza pode escapar a mentes aprisionadas pela pós-modernidade, mas uma representação iconográfica não pretende abranger o representado, senão comunicar suas qualidades, valendo para as artes visuais como uma metáfora vale ao texto. 

Enquanto fé e ciência jamais foram entendidas como antagonistas pela cristandade (seria realmente absurdo pensá-lo, vez que, por uma, a Igreja era a maior promotora da técnica e da livre investigação intelectual, e por outra, tampouco se tinha notícia de organização social frutífera sem algum horizonte místico), era igualmente evidente, muito antes do advento dos microscópios, que Deus, se existe, é imensurável por definição. O cristianismo medieval bebe da filosofia grega, em parte entendida como uma antecipação da Revelação, justamente porque seu Deus é uma necessidade ontológica apreendida da natureza mesma da realidade. 

As crias de Dawkins jamais estudaram metafísica e imaginam que, havendo um deus, este provaria sua veracidade ao enviar ao mundo sua fotografia autografada com firma reconhecida. Vivemos um verdadeiro apogeu intelectual. Sócrates deve se arrepender da cicuta. 

Conforme reza o Catecismo, Deus transcende a criação, mas está presente nela. Citando Agostinho, “é maior do que há de maior em mim, e mais íntimo do que o que há de mais íntimo em mim”; mantém e sustenta a criação. De tal feita, Deus não pode ser dissecado, desmontado, fragmentado e medido, pois Ele é a medida de todas as coisas. 

Para validar o divino em laboratório, seria necessário ao observador escapar à estrutura do real e fazer da unidade do cosmos seu objeto de pesquisa. Ora, o próprio observador é um escravo de sua materialidade. Ele existe e, por existir, sua presença o condena ao reconhecimento do tempo e da matéria. 

Deus é o eterno e o perfeito, habitando fora do tempo e do mundo, mas participando de sua estrutura, através da qual se revela. Vale dizer, inexiste uma “partícula de Deus” – Deus é a própria existência. Eis o que deve se sedimentar antes de debatermos quanto à autoconsciência ou não dessa vontade primeva. Assim é que a divindade faz-se cognoscível à razão humana, não sendo a fé a via exclusiva para sua apreensão, conquanto se revele a mais rica – bem o sabe São Tomé. Creste, porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!

domingo, 5 de junho de 2011

Nota musical

"Celui qui n'a pas vécu au dix-huitième siècle avant la Révolution ne connaît pas la douceur de vivre" - O desprezível Charles Maurice de Talleyrand-Périgord, primeiro Príncipe de Benevento. Como um relógio, podia estar certo duas vezes ao dia.
Num mundo tão pleno de melodia - há a música antiga, a clássica, a erudita; o coro gregoriano que evoca os sons do útero; há o jazz, a bossa nova e o rock'n'roll, ou outros mil timbres e arranjos dos folks de toda a Terra... jamais entenderei esse fascínio destrutivo das gentes pelo caos, pelo techno, pelo funk, pela completa anulação do ser. Sem medo do cliché: pelo nada.
Gritar a plenos pulmões e não ouvir a própria voz remonta-me sempre a algum pesadelo. Escapa-me, admito - talvez seja falha minha - diversão que se extraia disso. Perderei amigos, mas desejo ser límpido em minha hipótese. A civilização é órfã da valsa e do minueto, do madrigal e, por que não?, das tarantellas e mazurkas. A olhos vistos, pelo enegrecimento dos áureos salões. Foram o lar de todas as artes. Foram-se. Não voltam mais.
Enquanto dependentes do fogo, todas as reuniões buscavam a luz. Quando o domesticamos, escondemo-nos dela. Todos juntos, não nos reconhecemos - e não pelo fim dos bailes de máscaras februarinos. Não!  Mas pelo exato oposto. Pela não-forma confinam-se as multidões invisíveis. Em Veneza ou na Grécia, cambiavam-se as personas. No grande zunido hipermoderno, materializa-se a dor de persona não ser e de não haver uma cultura a encontrar. Sob o estrondo cataclísmico dos subwoofers, os átomos chocam-se no vazio.

sábado, 2 de abril de 2011

Do bom combate


Juro-vos: detesto falar de ou escrever sobre política. Viver em uma era na qual tudo o que é humano foi ideologizado e instrumentalizado é um fardo pesantíssimo. Mas, há como furtar-se a ele?

Gostaria de aprender e comentar sobre literatura, música - mas música de verdade, não essas barbaridades que assolam o Brasil - filosofia, teologia, poesia! Há coisa mais bela que a declamação? E a pintura - não a "moderna" - que talento exige! Quão abençoados os pianistas, os harpistas e as mãos que acariciam os violinos!

Mas nada escapa à maldição secular desferida por Karl Groucho Marx (ou seria a de Robespierre?): não se pode contemplar nem sentir coisa alguma, senão para aprisioná-la e esmagá-la em esquemas de poder, custe a falácia que custar.

Não é de espantar que o mundo, depois disso, pareça-nos tão pequeno. Quem o pensa ignora o quão únicas são as almas incontáveis, em seus universos sem par na imensidão. A mim sempre fascinou mergulhar nas paisagens noturnas e imaginar as infinitas histórias ocultas a cada janela iluminada pelo caminho. Quantas fábulas fadadas a perder-se nos tempos sem jamais serem narradas, vislumbradas apenas pelos olhos que as sonharam!

Reduzir a mente divina incomensurável, cuja beleza impressa sobre o mundo visível e invisível implora por contemplação, à linguagem da luta e do conflito contínuos é mais que um crime, uma abominação! Façamos música e poesia e prestemos justiça com honestidade. A tanto fomos chamados, não para aprisionarmo-nos às picuinhas dos egos.

Se escrevo sobre política com triste freqüência, é em defesa do ideal dos que, como eu, querem um dia poder ignorá-la e por ela ser ignorados,  gozando o sono dos justos e a paz do Senhor. Daí minha exortação: afasta-te, hipermodernidade, das artes e do sagrado! Deixa-nos em paz, e vai tu para o diabo! Como diria o Pessoa do Reinaldo, por que havemos de ir juntos? Devolve às palavras seu significado, à música sua melodia, aos almoços seu riso e às terras, sua autonomia!

Retrocede, política, àquilo que sempre foste. Cessa de brandir tua espada sobre nossas cabeças! Recobra dos tempos da pólis tua ditosa virtude; fala-nos da boa ordem das coisas exteriores, dispostas segundo a felicidade junto ao Bem; reabre à ética o espaço da alma, baixa a cabeça à moral, que em vetusta ação se expressa. Tu és prolongamento da ordem divina, no coração humano por graça impressa. Imperfeitíssima imagem és, Política, daquela, não dela a sua engendradora!

Era costume entre os antigos romanos que, após uma vida dedicada à Res Publica, os grandes senadores pudessem retirar-se incólumes às suas villas. Eram nos mais belos recantos do Mediterrâneo. Hora de desfrutar o vinho de suas videiras à sombra das oliveiras eternas, ler bons livros, relatar à posteridade a sabedoria acumulada por seus gênios incomparáveis. Nenhum adversário das velhas lutas intestinas teria, doravante, o direito de disturbá-los. De senectude... Liberdade, enfim!

Hoje é difícil sustentar o senso cívico do mundo romano ou da cristandade das catedrais. Vivemos o tempo de excelência das afeições calculadas e das causas ocas, inclusive sobre as mitologias políticas.  Tudo é partido, e nenhum substrato comum nos une. Contudo, para uns poucos, o sonho de Arcádia persiste. A tais corações cabe o direito de vivê-lo. De viver como se deve, protegidos pelo respeito universal ao sentimento do dever cumprido.

Há de chegar o dia no qual a politização inclemente ver-se-á vencida e recuará aos confins que jamais deveria ultrapassar. Será o dia de deitar as armas. Até lá, segue o enfrentamento. Marchamos com as legiões pelo repouso das oliveiras. Por elas, a luta vale a pena. É o bom combate.