sábado, 4 de abril de 2009

Com pompa e circunstância

Também aceitáveis A cavalgada das Valquírias, a Abertura 1812, Marcha Triunfal e outras que tais.

Caríssimos! Após longo, sinuoso e não propriamente voluntário recesso, estamos cá e de volta outra vez – de minha parte, enfim, tranqüilíssimo, já que o Capo dello Stato brasileiro livrou-me de qualquer culpa pela crise econômica (meus olhos, beato me!, não são azuis como os de vovó... se bem que os Comitês do Partido dos Trabalhadores Brasileiros para a Classificação Racial sempre podem emitir parecer mui científico e dissonante, sabemos).

Não vos torturarei com um daqueles artigos de cinco laudas; não por ora, ao menos. Quero brindar-vos através de um verdadeiro escritor. Recomecemos em grande estilo e com humor maior ainda. Bem sabeis, ninguém sobrevive ao universo intelectual pátrio sem doses cavalares de humor, e com todas as ferraduras bem cravadas junto ao chão.

Ladies and gentlemen, esta casa tem o prazer de vos anunciar Mr. Nelson Rodrigues, o reacionário.


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MUITO VELHO PARA ANDAR DE QUATRO

Ah, o brasileiro não é bom de mesa. Dirá alguém que somos um povo pobre, e mais: —trazemos do berço a vocação, o destino da pobreza. Mas não falo de miséria. Aqui também o rico é um pobre de mesa. Lembro-me de alguém que foi à casa do Walther Moreira Salles e lá chegou, na hora do jantar, sem aviso prévio.

Walther Moreira Salles. O dinheiro escorre, por entre os seus dedos, como água (e já que falei em água, posso ousar a imagem líquida: — ele bóia num lago de “abobrinhas” como uma vitória-régia). Mas, como eu ia dizendo: — chega o visitante inesperado e, sobretudo, indesejado. E foi um pânico profundo. O mordomo, de casaca, pôs as mãos na cabeça. Nas paredes, quadros de Claude Monet, Degas, Gauguin. Na sua tela, um jóquei de Degas olhava a cena, num mudo escândalo, desolado.

Vejam bem. Cada um daqueles Degas, Monet ou Gauguin daria para matar a fome da metade de Sergipe. E, no entanto, aquela mansão não sabia como improvisar um bife, um simples, honrado e brasileiro bife. Para a mesa do Brasil um prato a mais constitui uma tragédia.

Para comer na casa de um amigo, o brasileiro tem que avisar com uma sábia antecedência. E porque apareceu, de supetão, o visitante do Walther Moreira Salles granjeou até o ódio das bailarinas de Degas e das mulatas de Gauguin. Por esse lado, o meu amigo e poeta Hélio Pellegrino não é muito brasileiro. Ninguém precisa avisar. Basta aparecer. E o nosso Hélio tem sempre um prato a mais, ou dois, ou três, para as visitas inesperadas e abusivas. Não importa a hora, nem importa o dia. Certa vez, um amigo do Hélio quis comer sardinhas do Báltico. Ora, nenhum anfitrião tem o dever de atender a uma fome tão caprichosa, original e fantasista. De mais a mais, não há sardinhas do Báltico nem no Báltico. Pois o Hélio as tem. Abriu uma lata para a visita e esta se regalou com sardinhas tão irreais, tão absurdas.

Em suma: — nunca me faltou, na casa do Hélio, uma fatia de pão para a minha fome e um pouco de leite para a minha úlcera. Foi o que aconteceu na última vez. Todos os sábados, lá vou eu para a casa dos Pellegrinos. (Quando eu era garoto, ouvi um jardineiro dizer à minha mãe: — “O sábado é uma ilusão”.) Chego e vejo uma mesa mais abundante do que nunca. Desta vez, não sou eu o único: — vão almoçar também o Sábato Magaldi e senhora, o Anselmo, irmão do Sábato, e Antônio Callado, o doce radical.

Hélio acabara de chegar da praia: dourara-se ao sol e assim tostado era um legítimo havaiano do Leblon. Houve um suspense quando apareceu Maria Clara Pellegrino, a filha do anfitrião. No implacável esplendor dos seus dezessete anos, é uma das meninas mais lindas do Brasil. Saúdo-a assim: — “Ave, Maria Clara, cheia de graça”. Passa Maria Clara. E, então, sem mais preâmbulos, começamos a discutir, aos berros, ou antes: — berrávamos, eu e o Hélio. Não se conhece, na biografia do Callado, um único berro. Do mesmo modo, o Sábato Magaldi. O doce radical é o único inglês que o mundo conhece; e o Sábato tem uma bondade que humilha os circunstantes. Eu e o Hélio, não. Somos amadores do berro. Sim, o Hélio tem a tendência da ópera, e alguém já disse, talvez eu mesmo, que ele é a própria ópera. O poeta vira-se para mim e faz-me esta acusação horrenda: — “Você é um reaça!”. Tremo em cima dos sapatos. Ele insiste: — “Você acusa as esquerdas com argumentos da direita!”.

Eu, “pálido de espanto” como no soneto, viro-me para o Callado. Digo: — “Foi você que me traiu, Callado!”. — e repeti, de olho rútilo e lábio trêmulo: — “Você!”. E, de fato, tempos atrás, eu me encontrei com o doce radical num terreno baldio. Era meia-noite, hora que, segundo Machado de Assis, apavora. O sino da matriz dá as doze badaladas. Eu e o Callado estamos embuçados e de chapelões de Michel Zevaco. Alhures, uma coruja rosna (nas minhas “confissões” as corujas rosnam). E, então, cochicho para o doce radical: — “Callado, vou contar-te uma que eu só diria ao médium, depois de morto. Você jura que não me trai?”. O romancista estende a mão sobre uma Bíblia invisível: — “Juro!”.

Com um riso terrível, declarei: — “Eu sou a encarnação abominável da direita!”. À luz dos archotes, Callado balbucia: — “E te pagam pra isso, meu bom Nelson?”. A minha satisfação é hedionda: — “Não espalha, mas ganho um tutu forte!”. O doce radical não diz uma, nem duas. Com um riso de Chaliapine, acrescento: — “Hei de beber o sangue ao d. Hélder e ao dr. Alceu!”. Neste momento, baixa uma luz no Callado e ele é implacável: — “Eu li isso no Eça. Li. Na resposta ao Pinheiro Chagas. “Notas contemporâneas’’!”.

Assim pilhado, fui de um cinismo total. Retruquei: — “Ó Callado! Ainda não percebeste que, além de ser ‘A direita’, eu sou ‘O plágio’?”. O amigo faz a reflexão lapidar: — “Há gosto pra tudo”. Assim nos despedimos. Na vastidão do terreno baldio, faunos de tapete atropelavam as ninfas delirantes. Pois bem. O doce radical saiu dali e foi contar tudo, tudinho, ao Hélio Pellegrino. Daí a irritação sagrada do poeta.

Depois do almoço, vim para casa. No caminho, passo em revista as minhas posições. E, pouco a pouco, comecei a achar que o Hélio Pellegrino não está longe da verdade. Realmente, tenho escrito e insinuado coisas altamente comprometedoras. Por exemplo: — de certa feita, cheguei a propor um esquema de salvação para as esquerdas. A minha idéia era simples, prática, realista. As esquerdas que aí estão, bebendo no Antonio’s e escrevendo nos suplementos dominicais, não justificam nenhuma esperança. São elas as autoras de 31 de Março e 1º de Abril. Portanto, deviam ser substituídas, até o último idiota.

Sem tal substituição, nada é possível e tudo continuará perdido e cada vez pior. Perguntará o leitor: “E que fazer dos esquerdistas atuais?”. Uma vez que lhes tiremos a função, o destino, teremos de ampará-los. São chefes de família, noivos, namorados, funcionários etc. etc. Eis o jeito: — as esquerdas demitidas seriam encaminhadas à reprodução. Na Espanha, quando a incompetência é irrecuperável, diz-se ao fracassado: — “Vá fazer uma família”. E quando o imbecil já a tem, insistem: — “Faça outra”. Imaginem vocês se a nossa esquerda, que até aqui não fez nada, começasse a procriar como uma coelha. Alguém duvida que seria uma atividade nobre, meritória, salubérrima?

O simples fato de ter oferecido a sugestão acima foi considerado um ato de extrema direita. Mas há pior, há pior. Quando começou a briga entre o Egito e Israel, correram ao d. Hélder. O nosso arcebispo respondeu como um Moisés de Cecil B. de Mille: — “Não me perguntem quem tem razão”.

Novamente, assumi a atitude de um direitismo ululante. Imensamente divertido, disse eu o seguinte: — ter ou não razão, eis a vida moral. Se não estamos urrando à Lua, se não desfilamos, em cada 7 de Setembro, montados solidamente — é porque temos um mínimo de razão. Cristo é Cristo, e não Barrabás, porque tem razão. E, se o d. Hélder não se incomoda com a razão, é capaz de se ajoelhar aos pés de Barrabás e de cuspir na cara de Jesus. Foi esta a minha posição de direita. Para d. Hélder, não interessa ter ou não ter razão. A mim interessa. Como disse o outro, estou muito velho para andar de quatro.
[12.3.1968]
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(in RODRIGUES, Nelson. O óbvio ululante: primeiras confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 170-173)
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