terça-feira, 18 de novembro de 2008

Crise de idéias ilíquidas

Tratamentos errôneos por diagnósticos ineptos: acontecem na vida, acontecem nos BCs.

A página de notícias da Rede Globo informa aumento nas vendas de “O Capital”, calhamaço do economista Karl Marx, alemão radicado no Reino Unido. Noto que a alegada crise financeira aduz efeitos positivos: há uns bons vinte anos os marxistas não liam Marx – sequer o “Manifesto”, panfletinho bem menos volumoso. Quiçá reaprendam a fraudar com um mínimo de verossimilhança.

Tratemos de nós, os homens. Se questionarmos ao jornalista da matéria supra sobre o fluxo de vendas de Ação Humana, O caminho da servidão, As seis lições, paira dúvida de sermos encarados tal qual avistamento de OVNI cor-de-rosa pululado de bolinhas? E se trata da Alemanha!

Lá e cá, os pitaquistas (profissionais do pitaco) encontram-se despreparados para essa abordagem. Provêm de uma universidade atualizadíssima pelas últimas tendências... do século XIX. Natural que atentem a elas quando soam as trombetas. Por jamais terem visto uma guitarra elétrica, teimam em tratá-la como violão.

A exemplo do governo Franklin Delano Roosevelt (1933 - 1945), a voz corrente toma a atual crise por um excesso de mercado – esse ente vil, egoísta mesmo, a ser contido pelo ponderado estado dos políticos e burocratas desinteressados. A exemplo do período Roosevelt, estão redondamente enganados.

A crise financeira atual brotou de um setor semi-estatizado da economia americana, o mercado imobiliário de alto risco, aberto e fomentado por grupos de pressão ligados ao partido democrata (Barack Obama fora instrutor de um destes: justamente o que ameaçava depredar bancos que não oferecessem empréstimos a descoberto). Se o toque inicial foi dado pela depravação do poder coercitivo estatal, as jogadas seguintes têm sido ainda mais bisonhas. Há uma obsessão dos bancos centrais por conter a deflação (queda de preços, a grosso modo), como se esta fosse um corpo estranho à atividade econômica. Carrinho! Falta pra cartão!

Deflação é instrumento essencial ao mercado. Se me for vedado reduzir preços quando a oferta supera a procura, como controlarei os investimentos de capital? As engrenagens se dissociam. As crises tornam-se crônicas. Tanto mais se a bolha inflacionária precedente tiver causa alheia à economia: o estado interventor, único ente perpetuamente indiferente às realidades que pautam a ação dos livres.

Cedo ou tarde, os investidores perceberão que os padrões de troca não mais correspondem aos valores em circulação, que as garantias do crédito que liberaram eram uma miragem impalpável. Em tais circunstâncias, quanto mais for postergada a readequação aos fatos, com maior violência ela se dará.

A participação econômica do estado faz-se intolerável por razão muito além da mera constatação de sua ineficiência relativa. É que a circulação de bens e a oferta de serviços de um regime democrático, tendo caráter iminentemente convencional, não sustentam convivência pacífica com um organismo teleologicamente coersor. Não se dialoga com espadas pendentes sobre a testa.

Tecer menção (que dirá se honrosa) aos padrões ouro e prata (métodos de contenção da emissão de títulos à conveniência dos gestores governamentais, obrigando-os a compartilhar da realidade mortal), à tolerância para com as correções na oferta de crédito da sociedade mercantil, ou, mais importante, denunciar os intervencionismos messiânicos da máquina pública sobre a economia como atendimento a interesses cúpidos na cartelização, na distorção das relações de consumo e na retração da concorrência, são todos procedimentos esotéricos para os analistas rotineiros, que já dão por “demasiado destro” o keynesianismo.

Utopia? Ao contrário. Até 1913, a América era desprovida de um Banco Central (mesmo que em latíssimo sensu). Sem impressora de moeda ao seu bel prazer, o sistema financeiro era forçado a um trato honesto dos valores depositados pelos clientes. A busca por correntistas originou uma miríade de pequenos e médios bancos em franca concorrência. Sob pretexto de sanar o pânico de 1929, as maiores fortunas de então (ainda hoje no ranking) ofertaram ao governo a capacidade irrestrita de imprimir ordens de pagamento irrecusáveis, criando por decreto os recursos de que precisasse, desde que compartilhasse a habilidade com tais corporações. Foi o abandono definitivo do gold standard e a passagem para a corrupção endêmica que destruiu o fôlego incomparável da América liberal.

A economia deixava de ser justa, na acepção aristotélica de justiça como proporção entre encargos e atribuições, na medida em que um trust – possível apenas via a lâmina estatal – tinha acesso à origem de um crédito inconversível e irrecusável por todos os demais. Trata-se da superação das leis de mercado por parte de uma dada elite desde então não mais sujeitável a falências ou concordatas, e desse modo intocável por parte de agentes econômicos alheios à seleção política, mesmo que fossem estes mais eficientes.

Qual o sentido, portanto, de acusar a falência do liberalismo quando um setor econômico artificialmente enxertado pela pressão estatal em um modelo per se catastrófico de condução monetária, para o qual crises sistêmicas a intervalos regulares fazem-se inescapáveis, detona o mercado de crédito e o governo insiste em impedir a fuga dos valores para investimentos em que possam recuperar seu status? São todos passos da negação de princípios liberais! Princípios realistas, já aplicados e de já reconhecido sucesso, mas dos quais a economia americana jamais foi parâmetro desde Roosevelt e até antes.

Entenda a crise financeira com quem já a previa muito antes do Jornal Nacional:

A página brasileira do Instituto Ludwig Von Mises – dedicado ao mais brilhante luminar da escola austríaca de economia – vem detalhando os meandros do abalo nos mercados com acuidade inigualável. Um roteiro introdutório de artigos indispensáveis incluiria:

- Thomas J. Di Lorenzo: As raízes da crise imobiliária.
Link: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=124

- Lew Rockwell e Michael Rozeff: Freddie + Fannie = Fascismo.
Link: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=125

- Lew Rockwell: O governo destroça a economia – um estudo de caso.
Link: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=147

- Mark Thornton: Como evitar uma outra depressão.
Link: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=150

- Antony Mueller: O que está por trás da crise do mercado financeiro?
Link: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=160

- Murray N. Rothbard: Crise bancária.
Link: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=119

- Robert Higgs: Como Franklin Roosevelt piorou a Depressão.
Link: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=130

- Ludwig von Mises: A teoria austríaca dos ciclos econômicos.
Link: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=149
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