quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Uma vitória

Discurso do presidente francês Nicolas Sarkozy, então candidato ao dito cargo¹, frente ao lotado estádio de Bercy, Paris.

Seleção e livre adaptação ao português por este que vos escreve. Publiquei-o originalmente no site O Pequeno Burguês e no blog irmão Direita da UCS, há um ano ou mais. Momento propício a relembrá-lo:

A vontade política e a nação podem estar tanto para o melhor quanto para o pior. As pessoas que se mobilizam, as quais se tornam uma força coletiva, são também uma energia capaz de agir para o melhor ou o pior. Admitamos aqui que ajam para o melhor. Nós afastaremos o pior ao respeitarmos nossos compatriotas, ao perseverarmos nossas convicções, ao mantermos a palavra dada. Nós enfrentaremos o pior enquanto aplicarmos a moral na política.

Sim, a moral.

A palavra moral não me assusta.

A moral, desde 1968
², não podia mais ser evocada. Era um conceito apagado do vocabulário político. Haviam-nos imposto o relativismo intelectual e ético, a idéia de que tudo é igual, sem qualquer distinção entre bem e mal, verdadeiro e falso, belo e feio. Tentaram fazer-nos crer que o aluno era igual ao mestre; que não era preciso atribuir notas, para não traumatizar os maus estudantes; que não era necessária a classificação. Procuraram nos fazer acreditar que a vítima valia menos que o delinqüente, e que não podia existir nenhuma hierarquia de valores.

Haviam proclamado que tudo estava permitido, que se acabava a autoridade, a polidez e o respeito; que já não havia mais nada de grande, de sagrado, de admirável; que não havia mais regra, norma ou qualquer proibição.

Lembrai-vos do slogan de Maio de 68 sobre os muros da Sorbonne: “Viver sem culpa e gozar sem limites”.

Assim a herança de 1968 introduziu o cinismo na política, a cultura do lucro a curto prazo, da contestação de todas as represas éticas. A pregação daquele movimento preparou terreno para a primazia do predador sobre o empreendedor, do especulador sobre o trabalhador. Olhai para todos esses políticos que se afirmam herdeiros de Maio de 68, dando-nos lições que jamais aplicam a si próprios. Eles louvam comportamentos e sacrifícios como quem canta “faça o que digo, não o que faço”. Vede como os herdeiros de Maio de 68 abaixaram o nível moral e da política.

Atentai para a esquerda hipócrita, herdeira do Maio de 68, que está na política, nas mídias, na administração, na economia, essa esquerda que saboreia privilégios, essa esquerda que não aprecia a nação, pois não vê mais nada a partilhar, tampouco a República, pois não suporta a igualdade. Essa esquerda que reivindica defender os serviços públicos, mas jamais usa os transportes coletivos; que ama ferozmente a escola pública, mas nela não coloca os próprios filhos; que diz adorar a periferia, mas nela não quer viver. Esquerda que faz grandes discursos sobre o interesse geral, mas é prisioneira de clientelismos e corporativismos. Assinam petições quando se expulsa um invasor de propriedade, mas não aceitam que o mesmo se instale em suas casas. Essa certa esquerda é culpada pelo imobilismo do país, e não o são os trabalhadores, os mais pobres, os mais modestos. Estes são suas maiores vítimas!

Escutai a esquerda que, desde Maio de 68, renunciou ao mérito e ao esforço. Cessaram de falar aos trabalhadores, de se preocupar com seu destino, de respeitá-los, posto que rejeitam o valor trabalho, um valor que não mais faz parte de seu universo. Sua ideologia agora é a da repartição, da semana de 35 horas, do assistencialismo.

A crise do trabalho está incluída em uma crise moral pela qual aqueles herdeiros do Maio de 68 portam uma enorme responsabilidade. Eu vou reabilitar o trabalho. Eu vou devolver ao trabalhador a primazia da sociedade.

Olhai como a herança de Maio de 68 debilitou a autoridade do Estado! Vede como os herdeiros daqueles que gritavam "CRS = SS"
³ adotam sistematicamente o partido dos bandidos, dos vândalos e dos contraventores contra a polícia.

Vede como eles reagiram após os incidentes da
Gare du Nord. Em lugar de condenar os vândalos e de dar seu apoio às forças da ordem, eles não acharam nada melhor para dizer do que esta frase, que merece ficar nos anais da República: “É inquietante constatar que se aprofunda o fosso entre a polícia e a juventude”.

Como se os vândalos da
Gare du Nord representassem toda a juventude francesa. Como se fosse a polícia a que estivesse errada, e não os baderneiros. Como se os vagabundos tivessem quebrado tudo e saqueado as lojas simplesmente para exprimir uma certa revolta contra alguma injustiça. Como se a juventude escusasse tudo. Como se a sociedade fosse sempre culpada, e o delinqüente, sempre inocente.

Ouvi os herdeiros de Maio de 68 que cultivam o remorso, que fazem a apologia do isolacionismo, que denigrem a identidade nacional, ateiam o ódio contra a família, a sociedade, o Estado, a nação e a República. Nesta eleição, trata-se de saber se a herança de Maio de 68 deve ser perpetuada ou se deve ser liquidada de uma vez por todas.

Eu quero virar a página de Maio de 68. Mas não basta dar a impressão de fazer isso. Nós não podemos nos contentar com ostentar grandes princípios, se evitarmos inscrevê-los na realidade. Eu proponho aos franceses romper realmente com o espírito, com o comportamento, com as idéias de Maio de 68. Proponho aos franceses romper em definitivo com o cinismo. Proponho reatar a política e a moral, a autoridade, o trabalho, a nação.

Eu vos proponho reformar, para construir um Estado acima dos corporativismos, dos grupos de interesse e dos velhos domínios feudais. Proponho-vos uma República una e indivisível, contra todos os comunitarismos e segregações. Ao invés de enfatizar sistematicamente os direitos em detrimento dos deveres, os herdeiros de Maio de 68 serão apresentados ao conceito de cidadania. Eu apresentar-vos-ei a liberdade individual, mas um individualismo acompanhado pelo civismo. Uma cidadania feita por direitos e também por deveres. [...]

A ideologia de Maio de 68 estará morta no dia em que a sociedade ousar chamar cada um para o cumprimento do seu dever. Nesse dia ter-se-á completado a grande reforma intelectual e moral de que a França tem mais uma vez necessidade. [...] Porque a França é mais que raças, etnias, território. A França é um ideal indistinguível de suas grandes pessoas, que desde o primeiro instante acreditam na força das idéias, na capacidade de transformar o mundo fazendo o bem à humanidade.

A França deve reafirmar os valores universais, sobre os quais jamais se deve transigir. Devem ser o fundamento de todas as políticas.

Serei o Presidente da liberdade de consciência, contra todos os fascismos.

Serei o Presidente da liberdade de expressão, contra todas as intolerâncias.

Penso que na pátria dos direitos do homem deve-se poder criticar livremente, caricaturar livremente, sem ameaças
de morte, sem exposição a violências. A todos os que desejam viver na França tenho a coragem de afirmar que nossa idéia de liberdade não é negociável, mas desejo deixar claro que, para nossa República, laicidade é o respeito por todas as religiões, não o desprezo para com elas. Desejo presidir uma França a qual defenda sua liberdade, e também a liberdade ao redor do mundo. Essa é a vocação da França.

Jamais vos direi “Sou eu ou o caos!”. Que democrata seria se exprimisse tamanho desrespeito pelas convicções de todos aqueles que não pensem como eu? Mas àqueles dentre vós que crêem nos valores de tolerância, de liberdade, de humanismo, digo que são os valores sobre os quais foquei meu projeto. São eles que fundamentam meu engajamento político e minha candidatura.

Viva a República!

Viva a França!

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¹ Sarkozy, data maxima venia, tem-se monstrado frente à presidência nada além de um ótimo candidato. Quem esperava a Thatcher continental prossegue no aguardo, enquanto a França continua o longo declínio que lhe é característico desde a revolução e seu Napoleão. A personagem, fortuna!, não esvazia o brilhantismo da peça.
² 1968, "o ano que não acabou - de encher o saco", como disse alguém em resposta ao clichê. Foi o festival mundial do maoísmo e das revoluções culturais, com o ápice parisiense de maio que quase derrubou o governo De Gaulle. A pauta ia da “liberação sexual” ao velho antiamericanismo. Barricadas pelas ruas, incêndios, tumultos e demagogias em massa entrariam para a mitologia da esquerda global.
³ Comparação entre as tropas policiais francesas (Compagnie Républicaine de Sécurité, CRS) e a milícia política nazista (Schutzstaffel, as SS). Algo como apontar nas operações do BOPE contra o tráfico um resquício da ditadura militar - ao que se inverte, sem sutilezas, a legitimidade da força.
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Um comentário:

Anônimo disse...

sarkozy prometeu muito com este discurso, porém, como você escreveu na nota de rodapé:"... tem-se monstrado frente à presidência nada além de um ótimo candidato".