quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Do ambiente, o meio

Temas locais em perspectivas globais.
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Avizinham-se as eleições municipais, de maneira que é chegado o momento de lhes dedicar algumas linhas. Para tanto, sabendo como vários dentre vós visitantes esparramam-se pelo globo, devo ambientar-vos. Jamais presumiria, por certo, que nutrais curiosidades sobre o pleito em meu pedaço de mundo, mas as reflexões que proponho ostentam pretensões universais. Esta cidade é um bom exemplo de maus exemplos, se bem me entendeis. Quanto aos compatriotas rio-grandenses, sentai, que lá vem história.

Já informa o perfil ao lado: meu objeto é Caxias do Sul, um ponto no mapa gaúcho cujas bordas trazem alguma semelhança a um marreco olhando para trás (acalmai-vos, no futuro expressarei isso graficamente). Esta municipalidade foi despojada de outra, São Sebastião do Caí, a fim de melhor tratar a colônia itálica encravada em meio ao planalto nordeste do estado do Rio Grande do Sul.

Itálica em termos. Os primeiros europeus a erguer comércio nestas paragens foram portugueses, geralmente obliterados como mero detalhe, graças ao viés edipiano da historiografia pátria. Há de mencionar-se, ainda, a tentativa de colonização polonesa, paralela à imigração peninsular, porém dispersa no misterioso caso do envenenamento das crianças que dormiam sob o galpão dos imigrantes.

Vá lá, deixemos a narrativa policial e os remendos historiográficos, um desvio de foco.

Como fato, as terras do nordeste gaúcho, após séculos devolutas, foram consignadas pelo Imperador Dom Pedro II a populações do norte italiano, especialmente vênetos, em emigração pela crise econômica do país neonato. Eram pequenos artesãos, agricultores, pescadores, militares, inclusive. Ao contrário do senso comum, estavam presentes nos navios alguns indivíduos extremamente qualificados, literatos, inventores (conforme relatava o saudoso Jacob Parmagnani, Irmão Benildo, o governo italiano possuía ambições de império junto às populações que embarcava).

As famílias eram entregues entre Rio Grande e Porto Alegre, donde encaminhadas à penosa subida da encosta serrana, por um ambiente que se revelava progressivamente selvagem. Encontravam mata densa, animais desconhecidos e a completa ausência de qualquer coercitividade fundada na lei positiva, unidos por fim à conduta moral do seio familiar. Sem dúvida, não era o Brasil imaginado, mas um interior inexplorado, onde as noites eram frias, o inverno matava as plantações com geada e neve, e a comunicação externa se escasseava.

Chegadas à então Colônia de Santa Tereza (designação pregressa), e só então, conheceriam suas terras – matagais inóspitos, distantes mesmo das parcas residências estabelecidas. Nesse ponto, o primeiro segredo: as terras eram compradas pelas famílias, jamais doadas. Motivos há para homens como o leninista Tarso Genro, falando da serra gaúcha como exemplo de “reforma agrária” (com o MST em mente), omitirem de seus relatos este detalhe – e nos detalhes mora o diabo.

O que se seguiu não se deu “apesar” do esquecimento, mas justamente por ele. As colônias não existiam para o onipotente poder público instalado em Porto Alegre - lembrava-se delas ao contabilizar o fisco. A capital era terra distante, que vivia embebida no positivismo lunático, estatólatra e caudilhista de homens como Borges de Medeiros e Julio de Castilhos. Sem favor do clima, tampouco do ambiente, e abençoadas pelo estado diminuto e de limitado potencial para a rapinagem, a técnica dos colonizadores floresceu de forma ímpar em outras regiões. Em Carlos Barbosa, localidade próxima, mesmo a energia elétrica despontou da livre iniciativa.

Com o aporte do trem a vapor – enfim uma contraprestação acertada -, tanta potência criativa derramou-se como comércio junto às linhas férreas, forte ao ponto de sequer o ditador Getúlio Vargas e sua proibição à fala no idioma natal enfraquecerem a comunidade assim formada.

Caxias do Sul e região são caso exemplar de autogestão, microgoverno, autonomia, pois em seu DNA está a ausência de expectativas quanto ao estado. Suas redes de ensino e saúde nascem diretamente da caridade cristã, nas escolas e hospitais confessionais. Sua economia, em um irrelevante percentual de funcionários públicos quando da fundação – no mais das vezes peritos agrimensores, de tarefas objetivas e indissociáveis da parceria para com a nova civitas e seus civis.

Em geral, as explicações sobre a brutal diferença entre a economia do sul e do norte gaúchos, [re]calcadas no marxismo, dedicam-se ao tamanho das respectivas propriedades rurais (latifúndios, charqueadas e escravagismo entre Pelotas e Alegrete; minifúndio a leste de Santa Maria), um determinismo quantitativo. Em verdade, a constante evidente é o valor da pessoa humana, forçado à serra pelo isolamento, contra a servidão nobiliárquica do centro-sul, agarrada aos títulos do poder político e precocemente ligada à república dos bacharéis.

Enquanto Caxias do Sul encubava multinacionais, Pelotas intercambiava com a França das revoluções os diplomas de seus futuros burocratas. Enquanto construíamos fábricas e edifícios funcionais, Porto Alegre pagava ao governo a edificação de monumentos.



Hoje, a região nordeste do Rio Grande do Sul possui a segunda maior concentração de empresas do mundo, subjugada apenas por Milão, Itália. Caxias é o segundo pólo metal-mecânico do Brasil, logo após o ABC paulista.

Infelizmente, este trunfo também é seu maior defeito. As barreiras naturais foram vencidas, também as de comunicação, e a integração para com o Brasil-República – um país de valores diametralmente opostos aos fundadores do dinamismo caxiense – leva o corpo à hipotermia. Pouco pode um homem fazer com seu calor contra o frio mar noturno, e o mesmo vale para a sociedade aberta do sul frente ao mercantilismo de quatrocentos anos, reinante em nossa maltratada nação.

Por volta de 1990, uma série de reportagens do Jornal Nacional vendeu a cidade como terra prometida da empregabilidade, esquecendo-se de mencionar falar-se de indústria de alta complexidade, cujos serviços exigem currículos muito específicos. Os cinturões de miséria – bem mais antigos, claro – conheceram a explosão demográfica. De duzentos mil habitantes, saltamos aos quase quinhentos num piscar de olhos.

Em 1996, o gramsciano Partido dos Trabalhadores alcançou o paço municipal, iniciando sua característica fusão à burocracia e institucionalizando rotinas de dependência entre aqueles cinturões e o domínio político.

O meio universitário (mais um fabuloso caso: a Universidade de Caxias do Sul é ente privado, mas fundacional e de instituição caracteristicamente pública) foi instrumentalizado pelo partido, que soube fidelizar os sindicados pseudoacadêmicos. Temos mesmo nossa pequena Marilena Chauí regional, Loraine Slomp Giron (proprietária ipso facto do depto. de História, esta senhora chegou a propor a divisão da abordagem filosófica em "antes e depois de Michel Foucault"). Como se vê, a tese de Ortega y Gasset sobre os bárbaros gestados contra sua própria civilização segue em voga.

Uma cidade em montanhas, distante do mar, não tem como imitar Sbornia e navegar livre pelos mares do mundo. Assim, restam aos cidadãos carinhosos com sua terra saídas bem específicas.

A urgente, manter distante do governo local nossos embaixadores do PilanTrismo federal. A de médio prazo, referente aos líderes empresariais, é seguir o veneziano legado de Marco Polo (não confundir com Marcopolo), criando laços diretos com o mundo, burlando os bloqueios editoriais estabelecidos pela reengenharia social.

A de longo prazo, porém com execução desde já, é defender nossa formação cultural. Não me refiro às etnias, mas à mentalidade fundadora da serra gaúcha, a ética capitalista de Weber, de Peyrefitte, responsável por nossa alegada e disseminada prosperidade.

Julio de Castilhos tentou seduzi-la na visita à “pérola das colônias”. O trabalhismo varguista causou-lhe estragos que continuam a proliferar, e o sindicalismo desvairado do petismo infantil decepou-lhe um braço. Ainda assim, ela persiste. E deve ser resgatada junto a cada novo imigrante, venha donde vier, contra os bárbaros selvagens e os señoritos satisfechos. Enquanto a sociedade de confiança for vilipendiada onde seu vilipêndio é à tradição, sejamos nós também tradicionalistas. A meritocracia nos foi transmitida como herança.

O Brasil conheceu a história de Irineu Evangelista de Sousa, Barão e Visconde de Mauá, como exemplo de empreendedor esmagado pela máquina dos governos. Era um gaúcho. Na América, seria um mito, um herói. Nossos paralelos citadinos são Abramo Eberle, Raul Randon, Francisco Stedile, o tipo de homem que constrói novos mundos e sob seus esforços abre alas para dez mil outras biografias de sucesso.

Histórias que tais são um patrimônio comunitário. Protejâmo-las da inveja com a acolhida de um principado calcado no valor dos justos, a despeito de classes, categorias ou “lutas” cujo sangue jamais fertilizou acre sequer. Pode estar aí, na mentalidade, um grande nicho de exportação.

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