segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A solução de Galvão

Pequim será esquecida, enquanto a maratona continuará.

C’est finit. Voltamos a dormir nas madrugadas, sem nos preocuparmos com destinos longínquos e incompreensíveis, exceto via simplificações rasteiras.

Nesse período, fomos expostos a doses cavalares de propaganda, com paralelo direto e único na Berlim de 1936. Para deleite do antiamericanismo inconseqüente, dessa vez, o ditador venceu. Hitler teve de engolir em seco a liderança de Jesse Owens, um negro, em quatro modalidades olímpicas durante seu festival à “superioridade ariana”. Em 2008, porém, o Partido Comunista Chinês sorveu brindes coniventes ao polir sua colocação no quadro de medalhas nacionais.

A imprensa tratou o totalitarismo asiático como tempero da competência organizacional dos jogos. Ignorou os tapumes sobre os guetos urbanos, relevou a Internet censurada, conferiu status de “curiosidade” às prisões imediatas de quem pedisse autorização [!] para protestar.

Ancorada em uma concepção estúpida da economia de mercado (a que imagina o capitalistmo como mera circulação e concentração de capitais, desconsiderando sua ética, seus direitos predecessores, seus sujeitos), nossa mídia preferiu não encarar a escravidão e a miséria impostas (portanto nada “lamentadas”) pelo regime da China profunda, fora da trinca de cidades abertas à visitação. Oculta-se como, mesmo nestas, enriquecer é obter concessão d’O Partido. Não se entende que a história revolucionária foi resguardada da abertura por não convir lembrá-la ao ocidente, pois o golpista astuto jamais grita “assalto!”.

O dragão jogou anabolizado, à custa do extermínio de suas células, sob a cumplicidade da cobertura ocidental. Pequim foi a olimpíada que enterrou o espírito olímpico.

Impossível, contudo, exigir acuidade sociológica do jornalismo esportivo. Iludidos pelo enfrentamento desigual entre atletas livres e escravos do regime anfitrião, os comentaristas tupiniquins clamam por certo dever brasileiro ao protagonismo, como se gravuras em metal transmutassem a realidade dos cidadãos, e das medalhas em jogo viesse o desenvolvimento nacional, não o contrário.

Galvão Bueno (contra quem nada tenho, ao contrário da maior parte da população – é inevitável falar besteira quando sua profissão é preencher hora e meia de homens atrás de bolas), após o encerramento circense, tecia devaneios quanto às parcas vitórias dos canarinhos, e soltou o mote: faltaria participação do governo na formação de atletas. Para nosso mítico narrador, a cada vinte mil praticantes, poderíamos (sempre a primeira pessoa do plural, como se a medalha estivesse na parede de nossas casas) colher um medalhista, retirar “n” pessoas da pobreza...

Tal estatística galvânica, claro, é força de expressão. Relevante, porém, o elemento crasso de senso comum expresso por seu pensamento. Horas depois, o também notório Faustão, no mesmo canal, reclamava apoio do erário a um terceiro atleta olímpico.

Existem dois modelos de grande potência esportiva: a espontânea e a propagandista. Na primeira, pessoas cuja propensão de seus espíritos leva-as a obter satisfação pela superação física destacam-se ao natural, atraem a atenção dos que as cercam e, com recursos próprios ou de outrem interessado na visibilidade, investem nisso suas vidas. Em seu turno, os regimes propagandistas usam o esporte como humilhação do diferente, demonstração da força que não possuem de per si, furtando do atleta o mérito que é só seu, a fim de obter do mundo a admiração ou o temor que sua sociedade não é capaz de produzir. O beneficiário do esforço atlético, nesses países, é o monopolizador do poder, a boca dos deuses, o estado.

Considerar função estatal o fomento de atletas de alto rendimento é apostar no instinto de manada, na população ovina que requeira pastores – na equação de Galvão, cada pastor responderia pelo sustento psicológico de vinte mil fracassos. O narrador obviamente não tem consciência disso, mas nos oferta o modelo dos servos.

Chega-nos a informação de que, por medalha, o Governo Federal transferiu R$ 53 mi ao Comitê Olímpico Brasileiro. Trata-se do mais ineficiente investimento da história, feito com dinheiro dos cidadãos. Enquanto nossa Constituição, que se propõe a garantir saúde e educação universais e gratuitas, vê-se absolutamente afastada da eficácia plena, há de subsistir um mínimo senso de prioridades no trato do orçamento. Valores que tais, empregados no equipamento de polícias e clínicas, renderiam muitas oportunidades mais que a contemplação de rodopios no outro lado da Terra.

Não compete à política de um país livre o sustento de esportes – exceto o esporte na escola de turno integral, se estatal for a educação básica. É papel da iniciativa privada a recompensa ao esforço privado. Atleta que implora verba pública, que preste concurso para as funções da administração.

Triste a nação que, sem méritos, usurpa o pulo, o drible, a graça de seus esportistas. Em lugares assim, encerrada a maratona, desligado o televisor, resta dar-se por contente frente ao Grande Timoneiro, orar e laborar até raiar novo sol, esperando o desenrolar das glórias alheias. Nossas escolhas, tomadas por outros homens.

Eu sou Leonardo Faccioni, e faço votos a todos pelos louros da vitória - especialmente aos chineses.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom o texto! e a imagem também, bem ilustrativa... rs

F.C.