quarta-feira, 30 de julho de 2008

Vinho, mulheres e música - parte 1

Hora de desafiar Norberto Bobbio, correndo o risco de não mais ser convidado para o chá das cinco.

Conservador!
Direitista!
[Neo]Liberal!

Tirem as crianças da sala. Acabo de relacionar as mais escabrosas ofensas em língua portuguesa, ao menos neste lado do Atlântico. Pessoas sensatas afastam-se de tais classificações, como se portadoras da lepra. Os mais recatados preferem negar sua existência. “Os tempos são outros”, dizem, “as divisões sucumbiram”.

A última reação traz respingos do paradigma de Fukuyama, abordagem introduzida pela obra “O fim da história e o último homem”. Por sua vez, a primeira é produto tipicamente tupiniquim: nas demais democracias, eleitores de direita contam com grandes partidos liberal-conservadores, encarados com a mesma naturalidade conferida aos partidos de esquerda.

São os planos "a" e "b" para uma civilização monocórdia, refém de esquemas políticos cíclicos, acríticos, cuja aparência consensual permite confundirem-se à própria burocracia de estado. Um tem como alvo a direita em si, a fim de desmobilizá-la. O outro, a população em geral, afastando-a de seus valores corriqueiros – demasiado “caretas” para nossa intelectualidade avant-garde.

No ano de 1989, Francis Fukuyama verificava, pela queda do socialismo real, a vitória ideológica da liberal-democracia. Em sua visão, os fatos levariam a um consenso entre os intelectuais do ocidente, fatalmente conduzindo todo o planeta à solução derradeira sobre qual o melhor regime de governo, problema fundamental da política.

Os vinte anos seguintes encarregaram-se de desacreditar esse determinismo burocrático – eis que a gerência dos governos, afinal de contas, também não é uma ciência exata. No plano internacional, o fundamentalismo islâmico e o modus vivendi asiático atraem a afeição de nossas elites tanto quanto a anarquia atrai o bárbaro. Verdadeiramente pernicioso, porém, é o desentendimento generalizado sobre o significado de democracia. Trabalharemos esse aspecto em um próximo ensaio.

Os sintomas da esquizofrenia geral pela eliminação do pólo destro gritam. A política nacional disputa-se entre duas gradações da própria esquerda – e o susto que muitos tomam com a afirmação de que os social-democratas são esquerdistas é bastante significativo. Os veículos de imprensa, do caderno cultural ao policial, expressam sem vergonha suas inconformidades quanto ao pensamento do homem-médio (contrário às drogas, favorável à punição rigorosa dos crimes, avesso ao aborto, dedicado ao trabalho, insatisfeito pelos impostos...) e, em nossas universidades, tal qual disse Reinaldo Azevedo, há mais comunistas convictos do que em Havana e Pequim. O Ministério das Relações Exteriores, após recusa em classificar as Farc e seus campos de concentração como “terroristas”, decidiu ferozmente comparar a secretaria americana de comércio à tecnologia nazista – e o ódio nas palavras de Celso Amorim foi comovente.

O maniqueísmo é tal que ficamos assim: uma esquerda organizada monopoliza a análise crítica de governos e instituições de esquerda, cuja oposição se faz nos termos da esquerda – e a proposta é levar a sociedade, hoje conservadora e excludente – para, vejam só, a esquerda, onde encontraremos o humanismo, a fraternidade e a solução redentora dos males burgueses.

Esperem aí: se, do formador de opinião ao presidente da República, estamos todos entre progressistas, cadê o diabo das forças ocultas conservadoras a impedir a felicidade geral?

Questionar discursos obriga-nos a redescobrir o mundo dos fatos. Direita e esquerda têm sido usadas como rótulos que aderem a qualquer superfície, um julgamento estético com a mesma racionalidade de um “você é feio” e “você é legal”. Estar à esquerda é ser admitido no clube dos bem-pensantes, que desejam o melhor para a espécie humana. São o tribunal que define os vilões – e o vilão é o direitista.

Eis a única explicação ao critério que propõe fascismo como cúmulo da direita e comunismo como o da esquerda, conquanto a análise objetiva de ambos os sistemas escancare compartilharem políticas públicas, técnicas de recrutamento e até discursos absolutamente idênticos em uma área após a outra. O relevante para os bons moços não é retratar a sociedade, mas apontar o fascismo como o mal extremo, inimigo da humanidade, e o comunismo como a boa intenção de homens sonhadores. Espécies do mesmo gênero? Azar.

Elevar o infantilismo a um padrão de dialética política exigiu abafar o debate intelectual. Antonio Gramsci, comunista italiano, teorizou a modificação no significado do vocábulo. Criou o intelectual orgânico, um falso pensador, que não deveria realizar pesquisa. Sua missão é utilizar o prestígio adquirido em áreas banais – música, por exemplo – para emitir opinião sobre o que jamais teria condições de entender – para ilustrar: sociologia jurídica. Uma vez lançada, a manifestação aleatória será veiculada como critério científico para citações em outros escalões da hierarquia partidária, cada mentira sustentando a seguinte, gerando aparência de validade.

Essa nova rotina mental governa a pesquisa brasileira em humanas desde os anos sessenta. A principal credencial no meio acadêmico está no reconhecimento, por seus pares, de seu alinhamento progressista (refiram-se saiba Deus a que progresso). Abandonar a lógica aristotélica em nome do revisionismo marxista garante passaporte a um universo de convescotes, bajulação, corporativismo e inimputabilidade. Um prenúncio sindical do novo mundo possível, no qual todos desfrutarão de uvas, queijo, vinho, mulheres e música. A vanguarda da humanidade, muito zelosa, vai testando o paraíso enquanto conduz a classe operária à terra prometida.

Quem ver algo de estranho nisso, qualquer coisa, deve calar-se. Se abrir a boca, cartão vermelho! Seu currículo? Manchado. Seu nome? Impronunciável. Uma figurinha carimbada, um ET. Não importam seus argumentos ou a genealogia de seu pensamento, apenas sua espécie: você não é um de nós. Estará relegado à “direita”, ao imperialismo-ianque-nazi-fasci-sionista, um agente do “Consenso de Washington”. Se duvidar, dir-lhe-ão financiado pela CIA.
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Eu sou Leonardo Faccioni, e retornarei domingo, dia 3, na continuação de nossa jornada ao maravilhoso mundo das dicotomias. Até lá!

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