sábado, 20 de fevereiro de 2016

Um Réquiem para as Boas Maneiras

Por Stephen Klugewicz, para The Imaginative Conservative
Tradução de Leonardo Faccioni

Aos 9 de abril de 1865, o general Robert E. Lee encontrou o general Ulysses S. Grant na Casa McLean, em Appomattox, Virgínia, com o propósito de entregar a rendição do Exército da Virgínia Setentrional. Lee pedira pelo encontro e preparou-se endossando seu melhor uniforme: uma nova, longa casaca de colarinho alto, abotoada até o topo; um par de botas de cano longo com esporas; ao flanco, uma espada cravejada. Grant compareceu com seu traje rotineiro, o uniforme simples de um soldado comum: casaco curto e liso, botas sem esporas, todo salpicado de lama.

O contraste ao vestir acompanhou o contraste entre os homens: Lee era alto, de porte ereto e igual maneira. Barba e cabelos de um branco prateado circundavam sua face e perfilavam o vulto digno de um rei. Grant era mais jovem e dez centímetros mais baixo, algo encurvado e dotado de uma rala barba castanha. Ele estava claramente pouco à vontade na presença de Lee e, nervoso, tentou estabelecer uma conversação corriqueira. Grant disse lembrar-se ainda muito bem de Lee desde um seu encontro durante a Guerra Mexicana, quase duas décadas antes. Lee confessou não recordar coisa alguma da ocasião. Ouvir a resposta de Lee deve ter sido um momento embaraçoso para Grant.

Essa cena culminante da Guerra Civil Americana foi com frequência citada como o emblema de um divisor de águas históricas: a rendição alegórica do Velho Mundo, com suas personalidades régias, vínculos cavalheirescos e riquezas hereditárias, a um Novo Mundo personificado por Grant, um homem de origens humildes que repetidamente fracassara nos negócios e fez-se, finalmente, ao lutar na guerra (se bem que com esmagadoras vantagens em homens e materiais ao seu lado). E de fato foi assim.

Mas também foi mais. Menos notado é o descuidado desrespeito de Grant por Lee ao deixar de vestir-se apropriadamente para sua reunião. Escusas foram levantadas sobre Grant ter acorrido ao encontro às pressas, pressionado por negócios urgentes; por ter estado, naquela manhã, sofrendo há dias de enxaqueca, e que, consequentemente, “trivialidades” tais como uma própria vestimenta eram as coisas mais distantes de sua mente. Os admiradores de Grant chegam a apontar suas vestes rudes como uma insígnia de honra: aí estava o soldado duro na queda, o americano da fronteira, o verdadeiro democrata, cujo valor se encontrava em sua disposição interior, em sua perseverança, e não na superficialidade de seus trajes, preocupação efeminada de uma era afetada e decadente.

Mas as aparências importam. Quando estudante, o jovem George Washington certa vez realizou um exercício de cópia intitulado “Regras de Civilidade e Bom Comportamento em Companhia e Conversação”, baseando-o em um texto jesuíta do século XVI. No topo da lista de suas cento e dez regras, uma guia-mestra: “Cada ação feita em Companhia há de ser desempenhada com algum sinal de Respeito por aqueles que se encontram Presentes”. Essa máxima presidiu a cultura ocidental desde a Idade Média, exemplificada pelos modos corteses das classes elevadas, onde e quando quer que se encontrassem: dos cavaleiros do reino franco aos nobres elisabetanos, chegando à classe aristocrática do sul americano, por Lee e Washington representada. Aonde as classes altas conduzissem, as demais as seguiam. As boas maneiras comunicavam-se, de forma que o trabalhador comum, na Londres do século XIX, ao usar seus trajes de domingo, tentava emular os hábitos de seus melhores. Cartola e colete podiam ser batidos e de qualidade inferior, mas ele os portava altaneiro, nada obstante.

Hoje, a noção de que o cultivo de boas maneiras deveria ser parte essencial da educação pessoal foi perdida quase por completo. Ela parece ter morrido junto a sua maior defensora contemporânea, Emily Post. “As maneiras são a personalidade”, escreveu Post, “a manifestação aparente do caráter inato e da atitude que alguém tem perante a vida”. Provas de seu falecimento estão por toda a parte ao nosso redor: o uso aberto de linguagem chula pelas ruas, não apenas da parte de uma juventude desleixada e mal-educada, mas por bem-vestidos empresários de meia idade; a estridência em nossos ouvidos de algo equivocadamente tratado como música por seus adeptos desde as janelas dos automóveis; as curvas e mudanças de faixa por motoristas pouco afeitos à cortesia de dar sinal; a violação rotineira de nosso espaço pessoal por transeuntes sem qualquer pedido de desculpas, e, mais óbvio e espantoso, o horrível declínio nos padrões de vestimenta. Com efeito, camisetas, jeans e tênis tornaram-se indumentária padrão para adultos nas “sextas-feiras casuais” do mundo dos negócios, e, ainda mais sofrível, também nas missas de domingo. As pessoas se aventuram de suas casas, saindo a público em pijamas para seus afazeres das manhãs de sábado. Hoje é a classe mais baixa da sociedade a determinar os padrões dos trajes para todos os demais. Jovens adotaram versões exageradas de uniformes presidiários como roupa quotidiana, mormente calças por demais folgadas, vezes tantas usadas tão baixas que suas roupas íntimas (e mesmo o derrière) ficam expostos para todos verem.

A sociedade de boas maneiras começou sua agonia na América durante os anos 1960. O primeiro golpe letal foi-lhe desferido pela Esquerda radical, política e cultural, que pregava serem os paletós, os modos polidos e o asseio pessoal símbolos da opressão das classes médias burguesas. Por sua vez, trajar camisetas tingidas, jeans rasgados, chinelos de dedo, barba desgrenhada e cabelos despenteados sobre a face e a cabeça, ensinava a Esquerda, era a via para produzir a revolução igualitária que corrigiria as injustiças sociais.

A obra iniciada cinco décadas atrás pela Esquerda do espectro político foi exacerbada pela Direita anos depois. Grandemente em resposta às gélidas formas do que ficou conhecido como “politicamente correto”, imposto pelos radicais nos campi universitários, direitistas libertários, a partir dos anos 1990, adotaram o mantra de que “ninguém tem direito a não ser ofendido”. Em uma transformação decisiva do antigo adágio libertário sobre o direito de alguém terminar no direito de outrem, esses novos libertários alegavam que sua liberdade de expressão era completamente independente das sensibilidades religiosas alheias ou do apropriado senso de decoro. Portanto, pornografia, sátiras ultrajantes das crenças religiosas e linguagem grosseira eram aceitáveis em praça pública. A quem se ofendesse por tais coisas, esses libertários pregavam ser problema do ofendido, não do ofensor. Com efeito, os libertários arguiam que seu direito de vomitar o que quisessem pela palavra escrita e falada não era limitado pelos olhos e ouvidos alheios. Diziam aos ofendidos: “—Você que se vire!”

Assim os inimigos das maneiras, tanto à Esquerda quanto à Direita, juntos constituíram os Jacobinos de nossos dias, determinados não apenas a derrubar um sistema injusto de governo, mas a obliterar o próprio tecido social, destruindo para tanto todos os padrões de decoro. Este paralelo com a Revolução Francesa aproxima-nos ao pensamento do grande estadista anglo-irlandês Edmund Burke, para quem os Jacobinos da França estavam, acima de tudo, lançando um assalto às “maneiras”. Por “maneiras”, aqui, Burke entendia algo mais amplo que aquilo hoje entendido. Algo próximo ao costume. Para Burke, os costumes eram quase sinônimos de civilização. “As maneiras são mais importantes que as leis”, escreveu ele. “Maneiras são o que nos atormenta ou apazigua, corrompe ou purifica, exalta ou rebaixa, barbariza ou refina, por uma constante, determinada, uniforme, imperceptível operação, como aquela do ar que respiramos”.

Maneiras – e a própria civilização , Burke sustentou, dependiam de duas coisas: a religião e o “espírito dos cavalheiros”. Robert E. Lee acreditava no mesmo. Como presidente do Washington College nos anos seguintes a Appomattox, ele reduziu as regras da escola a uma única frase: “Cada estudante deve ser um cavalheiro.” Para Lee e para Burke, um cavalheiro era aquele que demonstrasse virtude cristã, como a incorporada no código medieval de cavalaria, um elaborado sistema de comportamento adequado para com os outros – maneiras no sentido estrito do termo.

A qualidade da humildade cristã reside na raiz da cavalaria. Um cavaleiro cavalheiresco (a palavra “cavalheirismo” compartilhando com “cavaleiro” a mesma raiz, como no francês “chevalier”) humilha-se em sociedade perante todos os demais. Eis como estava vinculado por obrigações não apenas a seu senhor, seu superior, mas para com os mais fracos, especialmente as mulheres, cuja virtude inocente era sua missão proteger, e também para com os pobres, cuja frágil condição era obrigado a aliviar. Basta lembrar de São Martinho de Tours, que famosamente cortou metade de sua capa militar para dar de vestir a um homem que nada tinha. Adotar uma filosofia de individualismo, pela qual é rejeitado o zelo sobre os outros, teria sido inimaginável para o cavaleiro cristão.

É preciso ter em mente quão únicas foram a noção cristã de humildade e sua idéia correlata de cavalheirismo ao longo da história mundial. No antigo mundo pagão, por exemplo, a humildade era considerada um sinal de fraqueza. Igualmente, em muitas sociedades modernas não-cristãs, é esperado dos superiores que sejam rudes com seus subalternos, assim mantendo cada qual em seu devido lugar. Os poderosos, em muitos tempos e lugares, impuseram brutalmente seu jugo como forma de manter o status quo.

Mas o cavalheirismo cristão, Burke acreditava, “faz o poder gentil” e servia para “embelezar e amenizar a sociedade privada”. Ele harmonizava as relações humanas. Sem ele, a sociedade só poderia manter-se pela força bruta e pela racionalidade fria. Ido andaria o calor das corteses relações humanas, corrompida estaria a moral dos homens, e todos seriam reduzidos a escravos.

É claramente impossível delimitar o momento exato quando o declínio do cavalheirismo e das boas maneiras teve início no Ocidente. Burke por certo encontrou o processo bastante avançado na Europa aos tempos da Revolução. “A era do cavalheirismo é finda”, escreveu Burke nas suas Reflexões sobre a Revolução em França. “Aquela dos sofistas, economistas e calculistas há triunfado, e a glória da Europa foi extinta para sempre”. Talvez, na América, o brusco declínio das maneiras tenha começado mais tarde, em um humilde lar ao centro-sul da Virgínia, onde o último cavalheiro do Velho Mundo deitou sua espada em derrota, dando lugar à Nova Ordem Mundial de governo centralizado, capitalismo de compadres e de um narcisista Homem Novo, cuja preocupação principal viria a ser o lucro e a felicidade pessoal, não a piedade e a preocupação humilde pelos demais.      

segunda-feira, 8 de junho de 2015

A nobreza da Reação

Não tenho problema algum com o vocativo “reacionário”. Em verdade, nobre elogio! Reacionário é quem reage contra tudo o que não presta, dizia Nelson Rodrigues. Qualquer cadáver pode seguir a correnteza — somente quem vive almeja reagir contra ela (Chesterton). Conforme Gómez Dávila, “quem quer que tenha vida interior” é um “verdadeiro aristocrata”, de modo que sequer se impõe ao reacionário, que reage porque verdadeiramente vive, mínima restrição de classe.

Imaginemos que você fosse um pastor. De ovelhas, bem entendido. Ou um camponês entre seus campos de trigo. Isso lá pelos idos de um outro século. Estava tranquilo a ceifar os grãos da terra, ou a tocar as ovelhinhas de um pasto ao outro, esperando que bebericassem a água da fonte. Chegam os soldados do rei. Um rei injusto. Iníquo. Abusivo. Tomam-lhe tudo o que haveria de comer no inverno. Violentam sua esposa e suas filhas. Revogam as tradições de bom governo e os direitos assegurados por geração após geração, tudo num instante, e partem em busca da próxima vítima, há algumas léguas dali.

O rei é um usurpador. E você sabe que, em algum lugar, distante que seja, um rei bom existe, homem concreto e sólido, e se conduz segundo os mais altos princípios. Existem, portanto, meios eficazes de depor o tirano. É possível opor resistência justa e restaurar a boa ordem — ao menos, uma ordem melhor. Você reage ou não reage? Se reage, é reacionário. Que beleza, portanto: ingressa na narrativa dos mais épicos enredos do imaginário clássico. Uma narrativa que, não por acaso, os novos contos fazem o possível por perverter.

O direito a reagir contra quem degrada a ordem justa é o direito humano por excelência.
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Por falar em imaginário, educá-lo é fundamental. Platão já o alertava, ao ponderar sobre quão imperioso seria expor o sábio, desde tenra infância, aos arquétipos mais estelares da virtude, de maneira a apresentar-lhe, já então, a bondade como hipótese biográfica a buscar com afeição em todas as suas possibilidades de conduta. Superabundam nos espaços da mídia as más narrativas, e mesmo os contos de fada, em releituras contemporâneas, impregnaram-se de cinismo e ceticismo quanto ao bom e ao moral. Tomemos, pois, contramedidas — seguindo o conselho de Gómez Dávila, mais do que nunca, “hoje, o indivíduo tem de ir reconstruindo, dentro de si mesmo, o universo civilizado que vai desaparecendo ao seu redor”: Esopo, Andersen, Perrault, os irmãos Grimm, Tolkien, Homero, Shakespeare, Dante, Chesterton, Dickens, Dostoiévski, Huxley. Os doze passos indispensáveis para salvaguardar o imaginário contra o assédio do tonto pós-moderno que espreita em cada esquina. Ao ver um pós-moderno (sentenciaria J.P. Coutinho), fuja para a modernidade. Ou vá além. Tanto melhor. Busque o Graal da Verdade, arme-se com armadura cintilante e retorne a provar que a pena, apenas esta, é mais forte que a espada, que o canhão, que a bomba. Vive para sempre e não se deteriora. Basta que alguém a proclame com retidão e a defenda contra o agressor.

sábado, 8 de novembro de 2014

A cidade antiga e a nova


Quando queremos ser elogiosos para com determinados modos, hábitos ou comportamentos que julgamos dignos e belos, tendemos a dizê-los “civis”, ou “urbanos”. Falamos em “civilização”, palavra com a mesma raiz de “cidade”, e é efetivamente essa a sua conotação positiva: a compostura da cidade, contraposta ao arredio do campônio.

Talvez o antigo romano, em sua urbe de vinte, trinta, quiçá cem mil habitantes às margens do Mediterrâneo, efetivamente fosse mais tratável que algum bruto barbarizado, perdido na Floresta Negra. Talvez, pois o prêmio esperado por todo augusto senador, cônsul ou procurador parecia ser o sonho arcadiano da villa, entre pomares e oliveiras, e não a selvageria do Fórum até a senectude. Talvez o cortesão renascentista fosse mais amistoso, a princípio, que um desconfiado pastorinho, ou um calejado servo da gleba. O professor da Bologna medieval seguramente teria mais a dizer sobre as artes e a verdade do que o mercenário suíço, embora talvez menos que o monge, no claustro de Montecassino.

Mas em nosso tempo, aparentemente em qualquer país, região ou clima, é nas pequenas comunidades de interior, onde a agricultura ainda comunica a liturgia inescapável das leis deixadas por mãos não-humanas; lá, onde a realidade constringe a vontade, que amizade e solidariedade ainda se brindam. A megalópole, seja Nova Iorque, São Francisco, Londres, São Paulo, Rio ou Pequim, barbariza. A selva de pedra aliena. As lâminas de vidro dos arranha-céus arranham a face de Deus, e a essa ilusão de ótica tremenda os homens, delirando onipotência, buscam se assemelhar. Dilaceram, assim, eles também sua natureza — e a da sociedade com ela.

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Leituras relacionadas:

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Muito além do crime

Acusar petistas de corrupção (o tipo penal previsto pelo texto legal) pode funcionar para fins eleitorais (há controvérsias), e seguramente corresponde à realidade, mas é inexato e insuficiente. Corruptos sempre os houve e sempre haverá — ainda que nunca antes vistos em tamanhos volume e desfaçatez.

A diferença específica do petismo não é que assaltem o erário aqui, acolá e onde quer que se instalem, tratando como sua a coisa pública. O projeto de poder do PT não tem por fim o enriquecimento dos líderes partidários (embora seu enriquecimento lhes seja um bem-vindo incidente). Petistas de pura cepa não hesitariam em perder fortuna, liberdade, ou mesmo a vida pelo campo político que integram, e esse tem sido o grande trunfo das esquerdas ao longo dos últimos três séculos: diferente do ethos aristocrático, a ética burguesa que hoje lhes é contraposta — nisso Marx estava certo — traz por fundamento a autopreservação, incitando a covardia; enquanto a Revolução chama ao martírio.

Isso porque a apropriação das verbas estatais pelos partidos de esquerda é meio, e visa a um fim de natureza tipicamente transcendente, que, em sociedades retamente ordenadas, estaria a encargo da religião. É a paralaxe estrutural das esquerdas que as faz buscá-lo dentro do universo imanente, ensejando o surgimento de indivíduos e coletividades aberrantes.

Petistas não são meros ladrões. São corruptores da alma e do espírito, e essa é ferida profunda — a mais difícil de tratar em uma nação. Pervertem caracteres um a um, inoculando ódios insaciáveis, capazes de devorar o mundo sem se exaurir. Ódio contra a realidade em si. Todo o poder humano não lhes seria o bastante: através do partido — ou, mais amplamente, do campo político esquerdista — o petista ambiciona tornar-se o primeiro dos “novos homens” (para Nietzsche, super-homem), apto a reordenar a natureza e a reescrever a história, realizando em si a promessa da Serpente: “sereis como deuses!”

Não é à toa que Saul Alinsky, um dos maiores nomes do movimento americano conhecido como “New Left” (Nova Esquerda), dedica seu livro mais influente (Rules for Radicals) “ao primeiro radical...que rebelou-se contra a ordem estabelecida, e o fez tão eficazmente que, ao menos, conquistou seu próprio reino: Lúcifer”.
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Petistas chegaram ao poder político formal após vinte anos de acusações aleatórias contra tudo e contra todos, todas fundadas em alegações de corrupção financeira. Entretanto, ao tomarem posse do governo, inauguraram o mais abrangente esquema de corrupção imaginado em nossa História.

Como se explica a incoerência?

É em semelhantes ocasiões que a sabedoria imemorial estapeia, com luvas de pelica, nossa soberba geração:
Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de trair, disse: 'Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres?' Dizia isso não porque ele se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam.” (Evangelho segundo São João, 12.3-6)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O melhor governo do mundo

(Texto de Richard Rahn. Seleção e tradução: Leonardo Faccioni)


A Suíça não é perfeita, mas, a julgar por como andam os países, é difícil encontrar algum muito melhor.

Quanto mais se conhece sobre a Suíça, mais se tende a admirá-la. Por quase todas as medidas de realização humana e, particularmente, ao criar o mais bem-sucedido modelo de governo, os suíços são, claramente, líderes mundiais.

A Suíça é um pequeno enclave, desprovido de recursos naturais dignos de nota, que logrou permanecer afastado de quaisquer guerras durante duzentos anos e desenvolveu uma democracia de longo prazo, multilíngue e plurirreligiosa, sem tensões. O império da lei conta com juízes competentes e imparciais, e a propriedade privada é fortemente protegida.

Entre os países do mundo, a Suíça destaca-se como:

  • nº 1 em “satisfação com a vida” (“Índice para uma Vida Melhor”, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico);
  • nº 1 em “competitividade global” (Índice de Competitividade Global, Fórum Econômico Mundial);
  • nº 2 em “taxa de participação na força de trabalho” (Estatísticas da Força de Trabalho, OCDE);
  • nº 3 em “felicidade” (Relatório de Felicidade Global da Organização das Nações Unidas);
  • nº 4 em “liberdade econômica” (Relatório de Liberdade Econômica do Mundo, Institutos Fraser e Cato);
  • nº 7 em “renda per capita” com base na paridade do poder de compra (Panorama Econômico do Fundo Monetário Internacional);
  • nº 2 em “prosperidade geral” (Índice de Prosperidade do Instituto Legatum); e
  • nº 1 em “expectativa de vida ao nascer” (Índice para uma Vida Melhor, OCDE).

A Suíça também pontua acima da média entre os países da OCDE (as 35 economias mais desenvolvidas do mundo) em níveis de educação e avaliações estudantis, e tem baixos índices de poluição do ar e da água.

As liberdades civis são igualmente asseguradas, incluindo liberdade de expressão, religião, imprensa, associação, e até mesmo o direito de possuir armas. Não se poderia desejar muito mais do que isso.

Os suíços evitaram criar o “culto à personalidade” em torno de suas lideranças eletivas. Os dirigentes eleitos da Suíça não são íntimos de seus compatriotas e, para o resto do mundo, passam-se quase invisíveis. Grandes são as chances de que você nunca tenha ouvido falar de Didier Burkhalter. Ele é o atual presidente da Suíça.

A história está repleta de líderes que detiveram demasiado poder e visibilidade. Talvez a razão pela qual os suíços tenham cometido menos erros em política externa e econômica do que outros países seja, em parte, porque não possuam líderes poderosos que possam impulsionar más políticas.

Muitos vêem o sistema suíço de democracia direta com embaraço, mas, como um amigo daquelas terras disse-me certa vez, “Não é que nós, suíços, sejamos mais inteligentes que os demais; mas, dado o nosso sistema político, quando finalmente nos dispomos a fazer alguma grande mudança, outros países já a fizeram e provaram que se trata de uma má idéia”.

O mundo é um lugar invejoso (a inveja sendo um dos sete pecados capitais) e, por conseguinte, pendem contra os suíços volumosas difamações de parte dos ciumentos e ignorantes. Atuando como conselheiro de diversos governos durante as últimas décadas, frequentemente os encorajei a encarar a Suíça como um modelo que funciona.

O modelo suíço é particularmente relevante para países com grupos étnicos ou religiosos rivais, mas, infelizmente, pouquíssimos outros países o adotaram...

Eles exportam com sucesso relógios, chocolates, fármacos, maquinário de precisão e muitos outros produtos grandiosos, mas falham a exportar seu modelo de governança limitada e descentralizada para o resto do mundo — o qual poderia ser sua mais importante pauta de exportação.

Em parte, isso acontece porque os suíços são por demais modestos. Seu fracasso em vender — ou mesmo explicar — o modelo suíço ao resto do mundo custou-lhes muitos problemas. Poucos entendem o sistema financeiro suíço e os grandes benefícios para o mundo causados por seu sistema bancário privado, com séculos de confiabilidade.

Como resultado, os suíços são frequentemente caracterizados pela imprensa global como vilões gananciosos, ao invés de mocinhos que protegem os direitos humanos e a liberdade, assim como alocam capital global para seus melhores e mais elevados usos. 

Está na moda considerar que os países sejam crescentemente ingovernáveis. Os suíços provam não ser esse o caso.

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Leitura relacionada: Liberdade e economia austríaca no Principado de Liechtenstein, por Andreas Kohl-Martinez.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Doze anos de PT: “the point of no return”?

“Segundo o jacobino, a coisa pública é dele, e, a seus olhos, a coisa pública abrange todas as coisas privadas, corpos e bens, almas e consciências. Assim, tudo lhe pertence. Pelo simples fato de ser jacobino, ele se acha legitimamente tzar e papa. Sendo o único esclarecido, o único patriota, ele é o único digno de comandar, e seu orgulho imperioso julga que toda resistência é um crime... No entanto, resta-lhe pôr em acordo seus próximos atos com suas palavras recentes. A operação parece difícil, pois as palavras que ele pronunciou condenam de antemão os atos que ele planeja. Ontem, ele exagerava os direitos dos governados, ao ponto de suprimir os dos governantes; amanhã ele vai exagerar os dos governantes até suprimir os dos governados.”

[...] “A dar-lhe ouvidos, o povo é o único soberano, e ele vai tratar o povo como escravo. A dar-lhe ouvidos, o governo não é mais que um criado de quarto, e ele vai dar ao governo as prerrogativas de um sultão. Ontem mesmo ele denunciava o menor exercício da autoridade pública como um crime, agora ele vai punir como um crime a menor resistência à autoridade pública.” — Hippolyte Adolphe Taine
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“Os intelectuais revolucionários têm a missão histórica de inventar
o vocabulário e os temas da próxima tirania.”
(Nicolás Gómez Dávila)
O próximo presidente brasileiro, ao receber a faixa, herdará uma bomba relógio; ao subir a rampa planaltina, entrará em um mausoléu de reputações.

Doze anos de petismo balcanizaram o Brasil. Há cheiro de pólvora no ar em todas as direções. Uma faísca basta para que tudo vá pelos ares: é a percepção de “violência difusa”, sobre a qual tanto se sente e pouco se fala.

Os agentes do partido governante disseminaram, de parte a parte, um desejo de revolta paralelo ao de Lúcifer: ensinaram por onde andaram que a miséria de um é a culpa de outro; que tudo o que o morro não possui lhe foi deliberadamente negado pela malícia do asfalto; que, se índios nômades aculturados tomassem para si as terras há cem anos cultivadas por milhares de famílias imigrantes, haveria justiça; que a pobreza, em um país desde sempre conhecido pela inviabilidade total de um corte étnico preciso, era questão de raça e de preconceitos burgueses.

O PT sepultou a concepção tradicional de educação, que buscava retirar o indivíduo de seu meio para apresentá-lo à vastidão do pensamento universal. Ao contrário, a pedagogia freireana encampada pelo partido, ao invés de elevar, rebaixa. Torna o aluno incapaz sequer de suspeitar que um objeto possa ser examinado por mais de uma dimensão, ou que a gôndola do supermercado onde brota seu arroz deva sua existência a uma cadeia incomensurável de agentes — da produção, sim, mas também do pensamento — aos quais debitar gratidão. A educação petista produz, em série, imbecis imediatistas. Zumbis de uma cultura de ódio e devassidão, prontos a tomar pela força tudo aquilo a que imaginam ter direito. Não importa, para tanto, a quem precisem atropelar.

Por sua vez, o modelo econômico desenvolvimentista dá claros sinais de esgotamento. Precisará de ajustes dolorosos. A falência do sistema energético, com surreais anúncios de reajuste tarifário para após as eleições, é prenúncio do que está por vir; ponta do iceberg. Os investidores o sabem, e a Bolsa dá mostras. Quando a inflação consumir sozinha o mensalinho do Bolsa Família, essa geração berçada sob a cultura da “música de contestação”, do “rap reivindicação”, do “fazer valer os seus direitos” não os buscará contra a autoridade política, mas contra a sociedade, cujo representante arquetípico é quem quer que se encontre pela rua em seu caminho. Haverá choro, ranger de dentes, fogo e balas insuficientes. 

Não se enganem, porém. A situação não se armou a si mesma. Teve seus arquitetos, como teve seus executores. Desejaram e desejam ainda o desfecho ora quase inevitável para esta que é a crônica de um desastre anunciado. Pensam que, estilhaçando a nação, poderão reconstruí-la à sua imagem e semelhança, e que todo preço a pagar por tão glorioso projeto seja pequeno. Passa a hora de nomeá-los e chamá-los a responder por seus atos de lesa-pátria.

“O mundo moderno não será castigado.
É o castigo.” (Id.)

sábado, 20 de setembro de 2014

Do político e do burocrata

“É a economia, estúpido!”, dissera um assessor de Bill Clinton — e a doxa apregoa, desde então com inigualável ênfase, que a qualidade do governante misura-se nas estatísticas financeiras. Foi, porém, por mentir ao Congresso sobre sua conduta moral, que o mesmo presidente assessorado viu-se em maus lençóis, por um triz não destituído de seu mandato. Um relance humano entre as engrenagens mecanicistas do mundo moderno.

Desde o momento em que se assentiu confundirem as artes, tomando Economia por Política, Política por Direito, Direito por Ética e Ética por Profissão de Fé Civil, cada qual se converteu em merce de um comércio maquiavélico, à mercê das conveniências, e para prejuízo de suas finalidades precípuas. Fraturada a especificidade da política, a atividade do homem político é a de um cego que tateia pelo escuro de um ambiente estranho, guiado por quem não sabe para onde deseja ir.    

À diferença do maquiavelismo estrito, propugnante da concepção que herdamos da Renascença — os dois corpos do Rei, isso é, a distinção entre moral privada, aplicável aos homens (e ao soberano, enquanto homem), e moral pública, permissionária, em seu exercício, das máximas atrocidades para a manutenção do poder — a perversão contemporânea não atribui duas, senão plúrimas naturezas ao príncipe, todas dispostas a negar-lhe a contingência humana e fantasiá-lo como divindade provedora, inventora de direitos, fautora de realidades. 

A extravagante confusão requer dos súditos não a altivez das antigas liberdades, nem as prerrogativas dos valentes forais ibéricos, quando a sociedade era moralmente sã e o direito florescia da realidade, emergindo dos vínculos, juramentos, gratidões e obrigações participáveis a todo o grupo, o qual percebia dos direitos o valor e os transmitia, de geração em geração, como herança preciosa a custodiar. Distintos brasões, tradições e culturas viam-se garantidos em suas autonomias intelectivas e, inobstante, conviviam e colaboravam para a edificação de uma civilização de plenitudes: dos casarios contíguos do burgo, como dos vilarejos esparsos do campo; dos palacetes e castelos, como das mansardas e choupanas, cada bairro, cada comuna reservava seu peculiar talento, traços e cores a edificar em catedral os valores inegociáveis. E, se todavia única sua arquitetura, remetia sempre à unidade da Cristandade. 

Assim também os homens, igualmente bons e dignos, porém diversos entre si em graus de excelência, conviviam em comunidade e por ela cooperavam, encontrando-se na pessoa do Rei e da Coroa (signo da “imago Dei”). 

Muito se perdeu. O soberano não mais é emblema de leis perenes e de espaços concretos onde o humano se manifesta quotidianamente, defendendo-os contra o risco perpétuo da desumanização; tampouco é pináculo esmerado a apontar exemplarmente para o Altíssimo. Não é um sábio magistrado a professar, entre as margens do humanamente concebível, a possibilidade da justiça e da misericórdia perfeitas. 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Considerações prévias ao estudo do Decreto nº 8.243/14: a “participação social”, essa desconhecida – ou: dos verdadeiros demofóbicos

A justificativa oficial para o famigerado Decreto nº 8.243, de 23 de maio de 2014, editado pela Sra. Dilma Rousseff a pretexto de instituir certo “Sistema Nacional de Participação Social”, alega propiciar ele meios de inserção da sociedade no aparato do Estado. O que seu texto assegura, no entanto, é a presença maciça de burocracias partidárias (oriundas do para-Estado ao qual fantasiam por “sociedade civil organizada”) em todas as instâncias da administração pública. Na mais benevolente hipótese, é um engodo a maximizar a já pungente ineficiência do serviço público. Na pior, engatilha mecanismos preocupantemente semelhantes aos que destruíram o controle legal sobre o exercício do poder em diversas nações vizinhas, mormente a Venezuela. Entre ingenuidade e crime, irrelevantes as intenções, sobressalta seu caráter lesivo às instituições. Esse cheque em branco não convém assinar.

De qualquer forma, antes de esmiuçar a dinâmica normativa em comento, é preciso que desarmemos uma cadeia nem sempre sequencial de premissas mal formuladas e objeções insuficientemente refletidas, de que diversos apparatchiks se vêm aproveitando à guisa de sustentar a pureza de sua armadilha. 

1. Governo é governo. Administração é administração. O decreto não garante qualquer controle popular sobre o que quer que seja, mas ingerência direta de esbirros partidários em cada instância administrativa de todos os órgãos de Estado. Eis a finalidade originária, transbordante até mesmo da linguagem adotada, que denota a ausência do critério de generalidade tão necessário às boas leis e, ao revés, de plano denuncia seu direcionamento partidário.

2. Deliberadamente confunde-se participação social com democracia direta — instituição já modulada, cum grano salis, pela Constituição Federal. Extremistas de esquerda entre nós sempre alegaram o intuito de “ampliar os espaços de democracia direta” — entenda-se, ampliar para além das possibilidades constitucionais. Para que funcione, uma idealizada democracia direta aos moldes gregos exige adesão total ao modelo grego. Modelo, isso é, com cidadania censitária e escravos que produzam uva e vinho a sustentar quem passa os dias a deblaterar na ágora. Se queremos democracia ateniense, deixemos claro de antemão quais de nós seremos os cidadãos, e quais os escravos, a fim de que nos ponhamos de acordo. De outro modo, se é para a sociedade indicar “delegados” junto às instâncias administrativas, tais delegados já existem e se encontram nos parlamentos, eleitos por voto direto de um a um dos brasileiros, e não pelo poder unipessoal do tirano de Siracusa.

3. “Ah!, mas a Suíça...”

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A Voz [de Ventríloquo] das Ruas: sobre o “plebiscito truffa” do PT


“Plebiscito truffa”. A expressão é italiana, e costuma fazer referência à seqüência de referendos estabanados, caracterizados por coação e unilateralidade, promovida durante a unificação forçada do país. Um após o outro, os territórios outrora independentes viam seus invasores a convocar votações que confirmassem a adesão da população local, “livre e espontaneamente”, à nova realidade política que as armas já haviam estabelecido. Votavam a quinta coluna e os conduzidos pela força; a maioria calava. Quando se abriam as urnas, surpresa alguma: unanimidade.

Uma anedota contemporânea ilustra bem a situação: no dia do plebiscito, saindo do local de votação, um agricultor famélico indaga ao outro, seu conterrâneo:
“ — E aí, votou em qual opção?”
“ — Eu? Nenhuma. Quando o mesário me entregou a cédula, já estava preenchida e tudo.”
“ — Bah! Eu também. Tanto melhor; assim cansa menos.”
“ — Pois é. Menos complicação...”

“Truffa”, aqui, está por “fraude”, “burla”, “enganação”, e sua etimologia efetivamente remete ao doce que, em português, conhecemos pelo mesmo nome: nesse caso, a massa vistosa oculta talvez vento, talvez veneno por recheio.

Para o mês de setembro, laranjas do petismo e aliados prometem realizar mais um “plebiscito truffa” no Brasil. Não é o primeiro no currículo da gangue — outros já houve, todos a fim de mascarar como “apelo popular” a pauta de uma camarilha extremista, tão organizada quanto demograficamente insignificante. No passado, os alvos incluíam dar calote nas obrigações do Estado; impedir a compra de produtos provenientes do “império ianque”; reestatizar empresas que, falidas enquanto estatais, enfim prosperavam sob novas gestões privadas.

Curiosamente, votações dessa estirpe corriqueiramente revelam por resultado final a concordância de mais de 90% dos aderentes para com a proposta dos organizadores. Índice de aprovação digno da Coréia do Norte. Espantoso como os partidos que ostentam em seus programas os mesmíssimos escopos nunca obtenham adesão maior que a de 5% do eleitorado, sempre que submetidos ao crivo de eleições fiscalizadas por órgãos um tantinho mais isentos do que eles próprios: e.g., as quatrienais para os parlamentos.

De volta a 2014.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Em cada coração, um monastério

Era uma vez uma civilização. Nela, havia a arte. E a arte que nela havia abria vias até o céu. Céu pleno de Vida — Vida nova, verdadeira, Vida que desconhecia fim. Ali, existia o Amor autêntico, tão belo quanto se diz. 

Infelizmente hoje, caros amigos, nada mais daquilo resta. Nada, senão as sombras das realidades que foram; ruínas e despojos de noções e virtudes que se pensavam eternas. Nada mais subsiste além do sonho, do desejo, da oração, da confiança em um milagre para a restauração universal. O milagre do Amor onipotente.

Perguntai-vos entrementes, que fazer? Amai-vos vós outros, exilados das verdades esquecidas. Encontrai-vos e amai-vos, pois sois ora vós os últimos. De modo que sereis os primeiros. Cada coração verdadeiro é monastério, ei-la a nossa situação nestes dias escuros. Deveis salvar, entre as muralhas do pensamento individual, cada fascículo ainda sobrevivente dos impérios olvidados, para prover uma vez mais ao cultivo dos bens incultos, campos abandonados e aldeias desertas que o novo tempo acumula, a nova paisagem revela.

Agora, os homens crêem que tudo no mundo — quando não o mundo mesmo, vezes tantas — seja convenção, arbítrio, livre disposição. Não reconheceriam autoridade suprema sequer se postos face a face ao Criador. A terra, porém, conhece uma só Lei, e essa mesma terra os há de chamar pelo nome. Tal é a natureza das coisas: sopram as areias do tempo, mas, por mais que pareça enuviar-se, nenhum bem verdadeiro em verdade se perde: comunicam o Bem, que no eterno perdura.
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domingo, 25 de maio de 2014

Heróis e multidões

Há quem chame “heróis” os manifestantes que aí estão. Nunca vi herói que se escondesse em multidão. Observando bem, a relação entre as massas e os verdadeiros heróis, mesmo quando entremeada por instantes de glória e deslumbramento recíproco, é vitimada por uma constante tensão: a alma grande deve sempre lidar com o desprezo, a raiva e a incompreensão das maiorias.

O herói é um indivíduo que eleva suas qualidades para além do ordinário, uma alma que transcende. A multidão amorfa é o oposto: o perdimento das qualidades pessoais, a dissolução de tudo o que há de único e sublime, em favor de um denominador comum para com o mais vulgar e instintivo.

Sócrates foi um herói. Foram-no os profetas hebraicos. O herói dos heróis foi Jesus Cristo, o Verbo que por amor fez-se carne, e mesmo d'Ele a multidão quis a cabeça em plebiscito, porque era amor em verdade e a verdade não convém. Os heróis da ficção seguem o arquétipo: a multidão pode idolatrá-los durante algum tempo, mas finda invariavelmente a detestá-los (como sói acontecer aos ídolos, porque necessariamente contingentes). O herói é a formiga que se prepara para a aventura — “ad ventura”, o porvir — e tenta demover a cigarra da situação confortável em que se encontra, repleto de compaixão. A cigarra nunca reage bem ao estímulo.

Se o herói pudesse confundir-se com a massa, não seria digno de tal nome. O ouro só é precioso porque difere das rochas entre as quais surge e com elas não se confunde; suas propriedades são exclusivas. É o único metal que resiste aos árduos processos do garimpo, o vestígio excepcional que, recusando-se a acompanhar os outros, agarra-se às calhas e repousa nas peneiras contra a pressão da enxurrada.

É por isso que os heróis, no mais das vezes, passam-se por reacionários. “Uma coisa morta segue a correnteza”, dizia Chesterton, “é preciso estar vivo para contrariá-la”. 

O herói é sempre um, não muitos, jamais todos. Heróis podem unir-se, por que não?, mas seguem sendo cada qual receptáculo de sua virtude. O sujeito da virtude não é o bando; a companhia é a circunstância em que se manifesta.

Herói é este que segue ao lado, com a imagem. Herói desconhecido, que, posto diante a uma corrente inescapável, feita com aço, sangue e ossos multitudinários, parou a marcha, frenou a coluna de blindados e, sozinho, disse “não”. Reagiu, o reacionário! Não se deixou levar! Em seguida, tudo indica, foi vítima de um “ato isolado de vandalismo” bastante comum nos Estados totalitários — o Estado-legião, que se afirma a encarnação perfeita e sintética, o alfa e ômega do “interesse geral”, da “consciência universal”, do “bem de todos”.

*Escrito aos 25 de junho de 2013. 

quarta-feira, 16 de abril de 2014

“Os laços te livrarão!”

«Os laços te livrarão!
Olha a vinha: está amarrada.
Mas vai-se erguendo do chão
Perfeitamente aprumada.»
(WEBER, Dreizehnlinden)

Muitos falam em “livrar o Homem de suas amarras” e, no entanto, permanecem eles próprios bem presos rente ao chão. Pois como pode a semente germinar livre da terra?

Tratam por “correntes opressoras” os laços que nos unem — laços sem os quais seriam irrealizáveis as liberdades verdadeiras: liberdades manifestas por alternativas cogentes entre futuros contingentes, a fim de que a vontade se expresse sobre seu objeto certo, o bem; não por folhas em branco, vácuos perfeitos, arbítrios ilimitados, vazios de ideal. São os laços os caminhos que temos a trilhar. Sem os elos delineados pela sociedade sã, o homem nada escolhe, nada realiza; é vítima das marés.

Bradam aqueles contra todos os valores, e acusam aquilo que sempre houve e sempre foi de “preconceito” e “temerário”. Nada passaria de aleatória convenção: negam a virtude da família, da maternidade, da comunidade e da propriedade. Cherchez l’argent — sigamos o dinheiro — e, todavia, no final do arco-íris do [a]moralismo hodierno encontraremos grandes famílias patriarcais e dinásticas, ciosíssimas de suas heranças e afeitas a seus círculos restritos.

Há quem negue a virtude. Há quem negue o Bem. Há, mais que todos, aqueles que primam por negar o mal. Segundo estes, no mundo, nada é melhor ou pior; tudo é igual. Convidam-nos a assim pensar e assim agir, e por tais parâmetros levar a vida: como charadas na escuridão. Mas eles, não. Eles, quando junto aos seus, não rezam sua filosofia. Desejam aos amigos os inquestionáveis méritos do bom, belo e justo, que então percebem bastante concretos, objetivos, inimitáveis. Insubstituíveis. Aos demais, a novidade e a moda; para eles próprios, a lei natural perene, sólida e inquebrantável.

Cuidado, pois, ao soltar amarras: uma vez deixada a alma ao sabor dos ventos, nunca se sabe para onde a irão soprar. Para o pássaro que toma o ninho por prisão, pior prisão que o ninho há: é não ter onde pousar senão na teia de dona aranha, conselheira devotada e tecelã paciente, que coseu fio após fio enquanto o exortava a saltar.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Notas a uma religião implícita

No século XIX, os Estados, dominados pela revolução, baniam ordens religiosas, expropriavam conventos, vetavam a missa e a procissão, quando não partiam à deportação e ao assassínio direto de católicos - tudo ao gosto de Nero. 

Na segunda metade do século XX, o clero, comandado desde Roma, mas há muito açulado e prontamente emulado nas Américas, infundiu-se de coragem e bradou, "Basta! A Igreja não mais será vítima mórbida das ideologias: há que ser protagonista!". E, desde então, a fim de se guardar contra a inimizade do Estado, a Igreja preventivamente bane, expropria e veta a si própria. 

A imprensa livre delira. Os chefes de Estado rejubilam. "Nunca convivemos tão bem!" Esmorece só o calendário, que remonta a dois milênios obscuros em um mundo ofuscado pelos anos 1960.

Os aforismos seguintes, de autoria do grande mestre colombiano Nicolás Gómez Dávila, escrutinam o Zeitgeist já não novo, conquanto animosamente renovado, que move a Igreja, a religião e a "espiritualidade" (o "Geist", ora pois, de nosso "Zeit") contemporâneas. Entre eles se vislumbra, outrossim, uma religião que já não há, de uma civilização que se foi, mas fora da qual não se logra em verdade viver.

"Mis convicciones son las mismas que las de la anciana que reza en el rincón de una iglesia." 

VENTOS DE MUDANÇA

«Antigamente, os tontos atacavam a Igreja; agora a reformam.»

«A crise atual do cristianismo não foi provocada pela ciência, ou pela história, mas pelos novos meios de comunicação. O progressismo religioso é o empenho de adaptar as doutrinas cristãs às opiniões patrocinadas pelas agências de notícias e pelos profissionais da publicidade.»

«Sobre o campanário da igreja moderna, o clero progressista, em vez de cruz, coloca um cata-vento.»

«Mais que um vento de traição, sobre o clero moderno sopra um furacão de estupidez.»

«A obediência do católico converteu-se em uma infinita docilidade para com todos os ventos do mundo.»

OS NOVOS MANDAMENTOS

«O clero moderno resolveu retificar a ordem dos mandamentos evangélicos. Assim, omitindo Deus, ordena amar ao próximo sobre todas as coisas.»

«Colocar o "próximo" no lugar de Deus havia sido o propósito do protestantismo liberal do século passado, e do progressismo católico pós-conciliar.»

«Ocupar-se intensamente da condição do próximo permite ao cristão dissimular suas dúvidas sobre a divindade de Cristo e a existência de Deus. A caridade pode ser a forma mais sutil da apostasia.» 

«A Igreja pós-conciliar pretende atrair o rebanho ao traduzir, para a linguagem insípida da diplomacia vaticana, os lugares-comuns do jornalismo contemporâneo.»

«A Igreja, ao abrir e escancarar suas portas, quis facilitar a entrada aos de fora, sem pensar que mais facilitava a saída aos de dentro.»

«O moderno trocou a Imitação de Cristo pela paródia de Deus.»

«A inépcia e a sandice do palavrório episcopal e pontifício nos turbariam, se nós, cristãos velhos, não houvéssemos aprendido, felizmente, desde pequenos, a dormir durante o sermão.» 

«Não conseguindo que os homens praticassem o que ela ensina, a Igreja atual resolveu ensinar o que eles praticam.» 

"HERI, HODIE, CRAS"

«A Igreja antiga pôde adaptar-se ao mundo helênico, porque a civilização antiga era de índole religiosa. No mundo atual, a Igreja se corrompe caso ceda.»

sábado, 1 de março de 2014

Contradictio

Por natureza, toda esquerda é libertária: adora libertar as balas dos tambores de seus revólveres. Que seus dissidentes insistam em cruzar a trajetória dos disparos é uma infeliz coincidência nada que macule os esforços da utopia.

Os regimes de esquerda instalam-se para abolir todas as prisões. Quem poderia resistir a tão nobre ideal, senão uma raça de víboras? Evidentemente, toda resistência à esquerda há que ser encarcerada.

Um governo de esquerda é necessário para que todos sejamos iguais. Nada mais justo que quem o torne efetivo venha elevado acima, mas muito acima dos demais. O governante de esquerda é ídolo, é soberano, é deus e quem não lo crê está morto. Ou estará, após julgamento sumário por tribunal popular de exceção, cujo costume fará regra.

A esquerda é um paradoxo para a doxa. É um fim em si mesma. É um moto contínuo em um poço sem fundo. É Cronos entre os gregos, a devorar os próprios filhos. É a grande aranha de Tolkien, cuja fome um mundo inteiro não poderia saciar. “Fuzilamos? Sim, fuzilamos e continuaremos fuzilando sempre que necessário. Nossa luta é dedicada à morte”, bradou um certo comandante argentino. “Caminante, no hay camino — se hace camino al andar”. E ai daquele que pensar em desviar do abismo logo adiante bala na nuca, conta à viúva. A esquerda é um morrer constante. O cristão, pelo martírio, alcança a Vida Eterna. O militante tombado assegura, ao revés, que a destruição não tenha fim.

Stálin ordenava sacar das fotos de glórias passadas os traidores de sua revolução. “Voltar atrás? Nem para pegar impulso!”, é hoje ainda lema da ilha dos irmãos Castro. Um conservador, diria G.K. Chesterton, consulta sempre a democracia dos mortos, recusando-se a seguir cegamente a arbitrária aristocracia dos que, neste instante, encontram-se vivos. Reconhece no tempo um baú de tesouro inestimável: a sabedoria confiada pelos avós de nossos avós, a ser legada aos netos dos netos. O esquerdista é de outra cepa: dedica-se continuamente a jogar ao mar novos cadáveres e os repescar do oceano, pelo macabro prazer de arremessá-los novamente.

O pior crime em uma organização de esquerda, aquém tão-somente do amor ao próximo acima das abstrações não definidas, é parar. Sim, parar pura e simplesmente. Deixar de pisotear, feito Átila, a grama sob seus pés, para enfim ouvir o silêncio. A harmonia da noite em uma praia deserta, indiferente ao pensamento. Sem uma turba a repetir os jargões de sua garganta, o esquerdista é um nada. Para o conservador, o silêncio é tudo: por ele escuta as regras impressas na natureza das coisas, que serenas se revelam apenas a quem as respeita tais como foram criadas. Não é um fatalista, aprende sim a cultivá-las conforme suas aptidões. Descobre segredos inóspitos na grande aventura do real.

Um deles: não baleá-las, se as quer vivas. Elementar? Nem tanto. Desde 1789*, ao menos, e hoje ainda, a esquerda política, cultural, universal — turbilhão puro, eco de si mesma em constante reinvenção da roda — matou, mata, promete matar, seguirá matando para que tudo possa, garante ela, viver um dia.

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*Datar o sanguinário modus operandi da política sinistra a partir da revolução francesa, seja dito, é generosa concessão. Particularmente, vislumbro suas raízes entre um punhado de heresias tardomedievais e os postulados maquiavélicos (Niccolò Machiavelli, recordemos, viveu de 1469 a 1527) que, esvaziando a Cristandade, convenceriam detentores e persecutores do poder de que a “luta” dispensava os princípios da ética comum, ou que a moral — ah, a moral! — aplicável aos simples, aquela mesma moral não se lhes aplicaria. Uma linhagem que haveríamos de perquirir seguramente até o super-homem niilista. Posturas intelectuais que forjam caracteres patológicos, assinalaria Dostoiévski; indivíduos cuja loucura fundaria civilizações inteiramente calcadas na histeria, arremata Dr. Andrew Lobaczewsk.

Entrementes, não nos pautemos por minha opinião. Deixemos falar ele, o revolucionário, na pessoa do epocal Saul Alinsky. Assim começa seu livro mais notável, fundamental à nova esquerda americana e global: com uma dedicatória “ao primeiro radical...que rebelou-se contra a ordem estabelecida, e o fez tão eficazmente que, ao menos, conquistou seu próprio reino: Lúcifer” ("Rules for Radicals"). Como se vê, 1789 foi singelo novo ato a um terror que precede o homem. Terror tão ancestral quanto a noite, e como a noite a ser vencido pelo dia... Noites e dias; revolução e contrarrevolução.